terça-feira, 4 de agosto de 2015

Das [im]precisões da madrugada I

Um mundo nasce e os homens se encantam com as novidades trazidas por esse universo de individualidades, que se constroem, diante daquilo que surge.
Era um nascimento de passados, veja, que contradição; o nascer do velho?
Mas, passado e velho podem não dialogar, o passado é já, o velho, nem sempre se relaciona com o jogo do tempos.
Qual teu tempo?
Quanto tempo ainda há?
Há tempo para perder?
Há tempo para ganhar?
Para além dos relógios e delimitações mecânicas do tempo, para além das ligações entre as horas que o constituem, que o Devir sobreponha as invenções temporais da lógica.
Das im[precisões] da madrugada, peço aos guardiões das horas mais tempo, mais vida, mais poesia, mais paixão, mais dos quereres que sacodem as lógicas e vontades reais e paralelas.
As interpretações da minha lógica falham a cada instante que ouso materializar as equações do que não é exato.
Não é preciso precisar o amor, basta senti-lo.

Do Impulso III

A vida é um deslumbre, me amedronta, me surpreende, me desconcerta.
O ser humano é muito contraditório e não sei lidar com isso. Não sei lidar com a minha contradição e me confunde a contradição do outro. 
Tenho me perguntado sobre os encontros e desencontros da minha vida, alguns deles me transformaram, outros, ainda configuram movimentos emocionais, os quais, me deixo levar, mesmo morta de medo. 
Hoje tenho tanta coisa pra dizer, mas travo entre as palavras que se escondem de mim.

Das [Des]construções II

Pega o facão dos versos e corta com maestria a carne dura da mediocridade.
Que o sangue que escorre, se transforme em poesia.
Que as marcas de cicatrizes posteriores anunciem liberdades e transgressões.
Que o livre arbítrio não seja golpeado pela caretice dos tradicionais da aparência.
Que a metáfora de um sangue poético reproduza a beleza de ser e afaste como mágica, qualquer tentativa equivocada de pertencer ao que não é.

Do Método II

Quero um liquidificador de emoções que triture e extraia de mim todas as possibilidade de Ser e Estar.
Quero o hedonismo corpóreo e não só intelectual de viver. 
Quero a duplicidade, a triplicidade, quero a possibilidade.
Quero ser tudo isso que me rodeia, essa amplitude de sentir para além do que é tátil e assim me concretizar, enquanto Eu por mim.

Inverso de um possível inverno do sentir

Não sei arquitetar uma ideia de estabilidade e ao mesmo tempo expectativas, embora pareça contraditório, uma coisa anula a outra em ordem inversa. Estou pronta para viver intensidades, entrega e verdade, sabendo que verdade não passa de um ponto de vista.
Não tenho intenção de confundir ou conduzir alma alguma, sigo fluindo e dançando a música que me agradar, não tenho medo de me expor, não falo de multidões, quero dizer que não tenho medo de me expor aos que escolho. 
Há tanta mudança anunciada dentro de mim...
Hoje os livros não me levaram a lugar algum e não me sinto frustrada, percebi que alguns merecem descanso. Ao mesmo tempo há livros intactos esperando para serem lidos e "navegados", no entanto, minha alma velha e teimosa insiste em reler páginas que já fizeram algum sentido, mas que hoje são apenas parte da história. Com certa coragem peguei todas as obras, guardei num baú escondido e lancei a chave no infinito...tenho a minha disposição um bloco de folhas em branco e alguns títulos bem peculiares, é hora de conhecer verdades que ainda são desconhecidas para mim.

Do Impulso II

Há muito o que se traduzir.
Há um integrar-se múltiplo e distinto de seres dentro do ser. 
Uma alquimia avassaladora toma conta das magias e metaficções que se interligam à vida.
Dentro do que está dentro, compõe-se o que é real e o que é ficção.
Para alguns o real não existe, pois, nunca foi compreendido.
Num jogo de tatear universos paralelos e construir realidades que consomem ao Self, o superego, nos salva das pequenas estruturas que nos absorvem. Cumprimos nosso "real" papel, mesmo nos deparando com as tais magias que nos metaficciona.
Ser duas para se encontrar consigo.
O que eu diria para mim?
O que eu faria por mim?
O que eu não seria, depois de me conhecer?
Seria metaficção de mim, um arranjo bom ou mau feito, uma bela obra, um grande desastre, tudo dependente de um contexto.

Recortes da Caixa de Pandora VIII

Há canções que possuem cheiro de férias, dos livros não lidos, do café que esfriou, da blusa amarrotada, do tempo que passou e da vontade de encontrá-lo.
Há canções que ultrapassam os sentidos e configuram a verdade de alguns momentos, algumas pessoas, alguns lugares.
Há canções que obscurecem o mais iluminado dia, que provocam taquicardia, que deslancham em travesseiros molhados de lágrimas que não se comportam.
Há canções que traduzem a alma, a vida, a morte e toda ideia de Ser e Estar.
Há canções que me compõem, me libertam e me provocam.
Qual tua canção?

Das [Des]construções I

Embora comece em março, meu outono particular é em novembro.
Quando é outono lá fora, começa primavera aqui dentro. 
Escolho as estações de acordo com a vibração do meu corpo e pra mim outono é início de tudo. Assim, novembro é tão delicadamente doce quanto o filme. escolho novembro em março e outono na primavera, mesmo que seja abril.

Do Método I

Há um motivo para tudo, principalmente para o que não permanece. 
Começo a pensar que tudo possui um código e que a interpretação ou significado é óbvio e simples, basta querer enxergar. Por alguma ótica começo a perceber que a entrelinha é a verdadeira ilusão.

sábado, 7 de fevereiro de 2015

Desconhecido

De repente, meu coração acelera e não me envergonho, pois quando alguém passa em nossas vidas de forma tão forte é normal que isso aconteça, mas me senti retraída, estranha, policiando as palavras, contendo gestos, embora outros encontros tenham ocorrido, dessa vez foi completamente diferente.
Parece que eu não estava a vontade com aquele que fazia-me sentir tão eu mesma. Depois do "susto", ainda persegui o fantasma do amigo, do homem, cheio de tantos afins que antes eu conhecia. Deparei-me com um estranho, não conseguia olhar em seus olhos, não conseguia pronunciar uma palavra naturalmente. Assustada, cruzei as pernas, pois em algum campo do meu corpo o mal estar ficaria exposto e minhas pernas tremiam e eu as apertava tentando esconder minha aflição. Acendi um cigarro e tentei sorrir e me fazer a vontade diante das conversas. Um pedaço de mim era invadido naquele instante de "prisão" e eu me sentia sufocada.
Ainda sinto a sensação de choro travado, palavra presa.
Não reconheci em mim o bloqueio do meu pensamento, uma espécie de morte dos sentidos da minha mente. Enquanto uma imensidão de pensamentos conversavam e brigavam entre si, vi um corpo tremendo e uma mente completamente bloqueada, uma pausa no filme das minhas ideias que refletiam exatamente no meu corpo tirando-me dali, mas sem me levar a lugar algum.
O telefone tocava e eu estava atrasada. Em outros tempos esse chamado não mudaria o roteiro, em outros tempos havia sincronia entre essas duas almas ao tentar desenrolar os novelos engalhados de suas vidas.
Senti uma espécie de morte súbita, por isso a falta inédita do que pensar, dizer...
Não havia mais reticências.
O telefonema que antes, pouco influenciava no prazer que se sentia, dessa vez foi meu prêmio de loteria.
O que era sublime e doce estava morrendo naquele instante, como se apagassem minhas melhores memórias da infância e tudo reduzia-se a um nada branco e mudo.
O som impenetrável de quando estávamos juntos não fazia diferença naquele momento, não sei se pelos corpos presentes, mas não existia mais impenetrável entre os nós. 
Então, fugi o mais depressa possível, senti uma necessidade de apagar tudo, todos, ele principalmente, toda aquela mesa queria ser exterminada pela minha memória. Todo passado misturado ao que me tornei invadia minha consciência numa disputa dolorosa. Essa sensação estranha de ser golpeada na memória através da estranheza que vinha do outro. A estranheza vinha dele.
Hoje encontrei um outro homem, com o mesmo tipo físico, mesmo perfume, mas completamente diferente de quem conheci. 
Senti um medo doloroso de não poder mais ver o verdadeiro, o que não compreendo é que não sei o que mudou, onde mudou, ou se foi apenas uma impressão de um dia difícil que vivi.