sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Quem

Não se pode invadir um espaço, não é mesmo?
Por educação, por consciência, por todas essas coisas que nos ensinam.
Duas pessoas e dois tempos totalmente distintos, uma vem do futuro e a outra mora no passado. Um ano fixo, um lugar fixo e uma vontade desconcertante de permanecer nesse lugar "perfeito". Parece que Ângela vive presa nesse mundo inalcançável.
Uma babaquice manter um mundo que não existe, é como planejar uma ilusão e não conseguir ultrapassar esses falsos prazeres. Depois reclama do que não tem, do que quer, do que não foi e reclama, reclama tanto que as forças que podia usar para viver se esgotam e então ela sobrevive e luta contra a chuva, contra o trânsito, o marido, o amante, o filho, a prestação do carro, ela combate o tempo todo e vive exausta.
Nunca vi mulher tão "compromissada", paga para trabalhar, paga para ser, para estar, para permanecer. E tudo é muito caro, tudo é muito difícil e cansativo e penoso e ufa!
Bom seria se ela não aprisionasse essa outra que a constitui.
São duas, duas maravilhosas mulheres, uma dentro da outra, duas pessoas, duas vontades, duas decisões, no entanto, a que hoje prevalece é essa chata que tenta controlar o mundo ao seu redor. Uma vez conheci a outra Ângela, linda, até a forma de falar era agradável, era paciente e forte, segura, uma dessas mulheres admiráveis e livres e imagina, me apaixonei. Depois de quase vinte anos eu ainda sonhava acordado, seria capaz de tudo em nome desse sentimento, seria capaz de renunciar os próximos anos e ter de volta aquela mulher do passado que representa todo meu futuro.
Por que eu amava o passado?
Eu era tão complicado quanto ela, queria aquela Ângela e ela queria aquela também, mas que não era a minha.
A minha era diferente da que era ela e ela era a minha que eu queria sem saber que era. Eu era aquele que nunca ultrapassou o muro que uma delas construiu. Eu podia ter derrubado o muro e ela podia ter aceitado. Duas pessoas e uma vontade, três pessoas e a verdade de cada uma delas. Eu era ele e ela poderia ter sido nós. 

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