segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Repentino

Ela disse que queria comer pimenta e beijar a boca dele.
Ele olhou e fez uma cara de curiosidade e ao mesmo tempo indagação, ele não hesitou e não pensou duas vezes, topou a experiência.
Imagine, comer pimenta e beijar com a boca ardendo, coisas de loucos apaixonados sem ter o que fazer.
Não os culpo, até pensei em fazer isso, pensei em milhares de coisas não convencionais e ainda estou pensando.
Bruno era do tipo que realizava os desejos das garotas, não era muito bonito, fazia o tipo nerd disfarçado e era muito galante, tinha um certo charme, era magro, mas sem ser esquelético e tinha um rosto adequado aos olhares femininos e carentes daquela cidade. Um garoto típico de uma juventude tipica numa cidade tipica. E daí?
Não sei, voltei a pensar na pimenta e o sabor desse beijo. Voltei a pensar inúmeras coisas indizíveis e acho que beijo com cereja, morango ou vinho seriam mais agradáveis. Dizem que fumar depois de comer algo apimentado é bom, deve ser uma queimação por cima da outra. Queria saber o porquê do gostos e das vontades, de onde vem o desejo e o que a gente faz com ele, cede ou mata?
Já matei, já cedi e nas duas vezes ainda não sei definir se foi certo, se poderia ser de outro jeito. Queria viver paralelamente no mínimo três vidas e experimentar tudo que eu desejasse, não medir tanto, ser sensata, mas poder anarquizar pra depois reconstruir na outra vida o que destruí em uma delas.
Queria ser uma canção por dia, um instrumento por pessoa, uma vontade cedida. Eu poderia ser um livro e ter uma história que pudesse abranger tudo sem ter que me sacrificar ou ser punida, eu poderia ser um livro desses absurdos, desses constrangedores, desses que "amolecem os ossos".
E se eu fosse um instrumento, qual seria?
E se eu fosse um defeito, uma qualidade, um filme, qual seria?
Só consigo imaginar como deve ser o sabor de um beijo depois de comer pimenta, agora me permito imaginar a sensação, depois me permitirei ao beijo.
E cadê a coragem?
Vou tentar encontrar na vendinha do seu Duda e que não haja inflação, coragem já custa caro, imagine em tempos de altas tabelas, passo no cartão.

4 comentários:

  1. Como sempre, extasiador!!!! Lendo forever aqui
    MC

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  2. Muito bom, carinha. Essa mistura de pensamentos, o monólogo interior é sempre uma delícia!

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Pluralize.