sábado, 29 de dezembro de 2012

Em quase um segundo

Não é porque é fim de ano e é especialmente porque é.

Todo ano é um ciclo, uma trajetória bem elaborada de um tempo que se demorasse mais, talvez enchesse ainda mais os consultórios por aí.


Sempre os mesmos votos de felicidade, as mesmas crenças e esperanças exaltadas pela mídia, pelos desesperados, pelos românticos e até os pessimistas que ao fim de tudo querem ser felizes.


Pois bem, carregamos uma bagagem absurda de passado que relutamos em não querer soltar, seja porque foi bom, seja porque nos machucou e não nos perdoamos ou não perdoamos quem protagonizou o/os fatos. Além disso vem a rede de ilusões que humanamente e um tanto infantilmente alimentamos. Propósitos mal elaborados, sonhos irreais, más interpretações e tudo o mais que norteia essa cadeia louca e passional que são os sentimentos.


Pensando em tudo isso, em todas as coisas, pessoas, pedaços, decidi que quero zerar tudo, absolutamente tudo que me fez mal, que me perturbou, tudo que eu fiz de insensato, ignóbil, todo atentado contra minha felicidade, principalmente minhas formas de felicidade.

Acredito cada vez mais que cada um tem um jeito particular de sentir-se feliz, de estar pleno e se encaixar no seu universo "perfeito".
Shangri-lá existe e eu acabo de conhecer...




PS:
ao som das melhores notas, absurdamente autobiográfico.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Recortes da Caixa de Pandora I




Deixa sangrar, deixa a ferida exposta e começa a tratar, desaba, uma hora o
sangue estanca, a ferida cicatriza e você só irá ter uma marca para constatar
que foi real, mas sobretudo para ter a certeza que foi e ferida fechada é cicatriz que não sangra.
__ na era que não era.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Crisálida

...cansada das minhas desgastadas palavras... "Elas que já tiveram vida própria, submetem-se às velhas narrativas e influências; imitam, plagiam e só. Relatam as mesmas paisagens, dores, alegrias e saudades. Fazem os mesmos elogios tão acostumadas e mecânicas que estão."

Novos cenários ajudarão, mas a verdadeira renovação é que fará a diferença, talvez seja necessária uma transformação, uma desestruturada, um revés ou grande virada de boa sorte.

Guardar as boas influências numa caixa, queimar as más influências.

Conhecer novos grafismos, novas gírias, novos tons.

Agradecer ao nascente, clandestino, inevitável.

Esquecer os vícios de linguagem que já parecem fazer parte de si, mas na verdade são de outrem.

Escolher uma palavra representativa para tatuar na alma.

Escolher um dialeto próprio, onde poucos possam dialogar, isso não significa excluir, mas colocar na "caixa" os especiais.

Dar novo sabor ao prazer de ser e permanecer.

Dar novas notas e esperar a hora certa de sua metamorfose.




quarta-feira, 25 de julho de 2012

Abrigo

...nesse instante me vejo lutando entre dominar uma fúria do que não se executa, mas embriaga como se o fizesse.
Solta e aparentemente descontínua segue a vida, onde o estado de comprometimento sempre é corrompido pelo que não se conclui, portanto nunca termina, a variável da equação sou eu e a
finalidade da mesma é desvendar o número que forma a icógnita.
Isso já não é mais algo que cerca minha vida. Eu sei qual minha forma, sei onde enquadrar cada pedaço e resultado, agora não sei mais o que fazer com o resultado. 

As metáforas que me regiam, apenas enfeitam minha sinfonia. O mí menor e melódico da música que soava não complementa mais esse que me formou, hoje sou mais que notas, ultrapasso sentidos sensíveis de melodias, hoje além disso componho linhas muito bem estruturadas do querer e não me prendo ao que ingenuamente parecia ser ideal. 
Tenho ideais, mas não sou mais feita deles, minha mutável essência encontrou outros monstros, outras fadas, outros saberes, onde não me prendo a palavras e olhares, construo meu sentir independente do outro, mas obviamente não deixo de ser afetada por uma espécie de vírus. 
Não é uma questão de buscar, mas de prazer. Na verdade o prazer constrói superficialidades em mim das quais acredito serem regidas por fugas não convencionais, mas concluo em minutos minha veia racional onde o prazer é acessório e posso lidar com ele de forma métrica, talvez sem rima e alguma dor. 

Cerco-me do que é palpável e quando sinto que não posso me guiar ou enquadrar-me num patamar de proteção comigo, fujo.
 

Protejo-me do todo, protejo-me de você, do sonho e principalmente de mim.



quinta-feira, 10 de maio de 2012

Target

"...meu coração atira ao alvo errado e acerta..."
Qual a sensação de participar de uma roleta russa de emoções?
E se a bala não está pronta, aliás e se a arma não estiver carregada?
O que cada bala possui pode libertar ou escravizar o alvo. Nesse caso busquemos a metáfora.
Preciso das metáforas para construir qualquer trecho de verdade, mentira ou puro capricho transferido.
Viva também as livres associações, pois, nos dizem ou querem dizer alguma coisa.
A finalidade do acordo entre sílabas nomeia o que se delata olhando, fazendo e sendo, sobretudo sendo.
Ampliando a dimensão dos mundos, olhei-me no espelho e perguntei:
- Quantas vidas passaram por aqui?
- Qual pecado, desafio, instinto, desejo, sobrepôs este outro mundo que apenas reflete e guarda anos, histórias?
- Quantos anos possui este espelho que me vejo?
- Quantos segredos não revelados?
Parei e olhei novamente o alvo. Esperava minha flechada às cegas, pois sempre há um labirinto ou nuvem entre meus desafios.
Não sou arquiteta do destino, minha única ambição é concretizar o querer tateando instintivamente até encontrar a presa.
Preciso viver o que é tátil, pois o platonismo me entedia e o tédio é uma tortura.
Não se mistura o mundo das ideias com o mundo do que é sentido. Um frustra o outro. Sempre o que se idealiza é confrontado com a realidade, portanto dou férias ao meio termo e sim carrego minha artilharia e solto o que deve e merece ser solto.
"Pessoas às vezes adoecem da razão
De gostar de palavra presa.
Palavra boa é palavra líquida..."
Sejamos práticos, soltemos os verbos, palavras, versos, sejamos livres, predadores e presas biológicas ou subjetivas, mas sejamos...
Só é alvo, aquilo que se presta ao ataque.



domingo, 6 de maio de 2012

Perdoando Deus

Eu ia andando pela Avenida Copacabana e olhava distraída edifícios, nesga de mar, pessoas, sem pensar em nada. Ainda não percebera que na verdade não estava distraída, estava era de uma atenção sem esforço, estava sendo uma coisa muito rara: livre. Via tudo, e à toa. Pouco a pouco é que fui percebendo que estava percebendo as coisas. Minha liberdade então se intensificou um pouco mais, sem deixar de ser liberdade.
Tive então um sentimento de que nunca ouvi falar. Por puro carinho, eu me senti a mãe de Deus, que era a Terra, o mundo. Por puro carinho mesmo, sem nenhuma prepotência ou glória, sem o menor senso de superioridade ou igualdade, eu era por carinho a mãe do que existe. Soube também que se tudo isso “fosse mesmo” o que eu sentia – e não possivelmente um equívoco de sentimento – que Deus sem nenhum orgulho e nenhuma pequenez se deixaria acarinhar, e sem nenhum compromisso comigo. Ser-Lhe-ia aceitável a intimidade com que eu fazia carinho. O sentimento era novo para mim, mas muito certo, e não ocorrera antes apenas porque não tinha podido ser. Sei que se ama ao que é Deus. Com amor grave, amor solene, respeito, medo e reverência. Mas nunca tinham me falado de carinho maternal por Ele. E assim como meu carinho por um filho não o reduz, até o alarga, assim ser mãe do mundo era o meu amor apenas livre.
E foi quando quase pisei num enorme rato morto. Em menos de um segundo estava eu eriçada pelo terror de viver, em menos de um segundo estilhaçava-me toda em pânico, e controlava como podia o meu mais profundo grito. Quase correndo de medo, cega entre as pessoas, terminei no outro quarteirão encostada a um poste, cerrando violentamente os olhos, que não queriam mais ver. Mas a imagem colava-se às pálpebras: um grande rato ruivo, de cauda enorme, com os pés esmagados, e morto, quieto, ruivo. O meu medo desmesurado de ratos.
Toda trêmula, consegui continuar a viver. Toda perplexa continuei a andar, com a boca infantilizada pela surpresa. Tentei cortar a conexão entre os dois fatos: o que eu sentira minutos antes e o rato. Mas era inútil. Pelo menos a contigüidade ligava-os. Os dois fatos tinham ilogicamente um nexo. Espantava-me que um rato tivesse sido o meu contraponto. E a revolta de súbito me tomou: então não podia eu me entregar desprevenida ao amor? De que estava Deus querendo me lembrar? Não sou pessoa que precise ser lembrada de que dentro de tudo há o sangue. Não só não esqueço o sangue de dentro como eu o admiro e o quero, sou demais o sangue para esquecer o sangue, e para mim a palavra espiritual não tem sentido, e nem a palavra terrena tem sentido. Não era preciso ter jogado na minha cara tão nua um rato. Não naquele instante. Bem poderia ter sido levado em conta o pavor que desde pequena me alucina e persegue, os ratos já riram de mim, no passado do mundo os ratos já me devoraram com pressa e raiva. Então era assim?, eu andando pelo mundo sem pedir nada, sem precisar de nada, amando de puro amor inocente, e Deus a me mostrar o seu rato? A grosseria de Deus me feria e insultava-me. Deus era bruto. Andando com o coração fechado, minha decepção era tão inconsolável como só em criança fui decepcionada. Continuei andando, procurava esquecer. Mas só me ocorria a vingança. Mas que vingança poderia eu contra um Deus Todo-Poderoso, contra um Deus que até com um rato esmagado poderia me esmagar? Minha vulnerabilidade de criatura só. Na minha vontade de vingança nem ao menos eu podia encará-Lo, pois eu não sabia onde é que Ele mais estava, qual seria a coisa onde Ele mais estava e que eu, olhando com raiva essa coisa, eu O visse? no rato? naquela janela? nas pedras do chão? Em mim é que Ele não estava mais. Em mim é que eu não O via mais.Então a vingança dos fracos me ocorreu: ah, é assim? pois então não guardarei segredo, e vou contar. Sei que é ignóbil ter entrado na intimidade de Alguém, e depois contar os segredos, mas vou contar – não conte, só por carinho não conte, guarde para você mesma as vergonhas Dele – mas vou contar, sim, vou espalhar isso que me aconteceu, dessa vez não vai ficar por isso mesmo, vou contar o que Ele fez, vou estragar a Sua reputação… mas quem sabe, foi porque o mundo também é rato, e eu tinha pensado que já estava pronta para o rato também. Porque eu me imaginava mais forte. Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões, é que se ama verdadeiramente.
Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil. É porque eu não quis o amor solene, sem compreender que a solenidade ritualiza a incompreensão e a transforma em oferenda. E é também porque sempre fui de brigar muito, meu modo é brigando. É porque sempre tento chegar pelo meu modo. É porque ainda não sei ceder. É porque no fundo eu quero amar o que eu amaria – e não o que é. É porque ainda não sou eu mesma, e então o castigo é amar um mundo que não é ele. É também porque eu me ofendo à toa. É porque talvez eu precise que me digam com brutalidade, pois sou muito teimosa. É porque sou muito possessiva e então me foi perguntado com alguma ironia se eu também queria o rato para mim. É porque só poderei ser mãe das coisas quando puder pegar um rato na mão. Sei que nunca poderei pegar num rato sem morrer de minha pior morte. Então, pois, que eu use o magnificat que entoa às cegas sobre o que não se sabe nem vê. E que eu use o formalismo que me afasta. Porque o formalismo não tem ferido a minha simplicidade, e sim o meu orgulho, pois é pelo orgulho de ter nascido que me sinto tão íntima do mundo, mas este mundo que eu ainda extraí de mim de um grito mudo. Porque o rato existe tanto quanto eu, e talvez nem eu nem o rato sejamos para ser vistos por nós mesmos, a distância nos iguala. Talvez eu tenha que aceitar antes de mais nada esta minha natureza que quer a morte de um rato. Talvez eu me ache delicada demais apenas porque não cometi os meus crimes. Só porque contive os meus crimes, eu me acho de amor inocente. Talvez eu não possa olhar o rato enquanto não olhar sem lividez esta minha alma que é apenas contida. Talvez eu tenha que chamar de “mundo” esse meu modo de ser um pouco de tudo. Como posso amar a grandeza do mundo se não posso amar o tamanho de minha natureza? Enquanto eu imaginar que “Deus” é bom só porque eu sou ruim, não estarei amando a nada: será apenas o meu modo de me acusar. Eu, que sem nem ao menos ter me percorrido toda, já escolhi amar o meu contrário, e ao meu contrário quero chamar de Deus. Eu, que jamais me habituarei a mim, estava querendo que o mundo não me escandalizasse. Porque eu, que de mim só consegui foi me submeter a mim mesma, pois sou tão mais inexorável do que eu, eu estava querendo me compensar de mim mesma com uma terra menos violenta que eu. Porque enquanto eu amar a um Deus só porque não me quero, serei um dado marcado, e o jogo de minha vida maior não se fará. Enquanto eu inventar Deus,Ele não existe.

Clarice Lispector -
 Felicidade Clandestina



segunda-feira, 30 de abril de 2012