domingo, 8 de maio de 2011

Anatomia

Compreender tua estrutura organizada e desvendar através da biogênese qual esse outro que te "criou", permitir desconstruir tua espécime e te deixar cru, afim de observar teu transmutar e me lançar no que seria teu infinito.

Cada limite pertencido e ignorado: compreender.

Cada sede não saciada, procurar causa e efeito.

Aplicar as leis universais do óbvio e descobrir que o devaneio não é só um capricho da imaginação.

Conscientizar em si mesmo aquilo que você nomeia, ignorando os ritos e pertencendo a um mesmo ritual.

Contrariando a ordem, pois todo ritual nasce do rito, sendo assim, faço minha parte e te transformo em Mito.

Mas sabes que não és fábula, o que eu sinto pode ser tocado, nomearia como simbiose a interação do sonho e do fato.

Contemplaria e classificaria tua cadeia.

Em transe navegaria em teu sistema para me perder e explorar intimamente tua caverna.

Doar-me sem medo, recusas, livremente como um tipo de fenômeno atmosférico; vento, ventania, aragem.

Saciar a impetuosidade de tua natureza e aceitar o plano sistemático de caça e caçador.

Nobre, cíclico e inteiro.





segunda-feira, 2 de maio de 2011

Sim, sou eu, eu mesmo, tal qual resultei de tudo..

Sim, sou eu, eu mesmo, tal qual resultei de tudo,

Espécie de acessório ou sobresselente próprio,
Arredores irregulares da minha emoção sincera,
Sou eu aqui em mim, sou eu.

Quanto fui, quanto não fui, tudo isso sou.
Quanto quis, quanto não quis, tudo isso me forma.
Quanto amei ou deixei de amar é a mesma saudade em mim.

E ao mesmo tempo, a impressão, um pouco inconsequente,
Como de um sonho formado sobre realidades mistas,
De me ter deixado, a mim, num banco de carro eléctrico,
Para ser encontrado pelo acaso de quem se lhe ir sentar em cima.

E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco longínqua,
Como de um sonho que se quer lembrar na penumbra a que se acorda,
De haver melhor em mim do que eu.

Sim, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco dolorosa,
Como de um acordar sem sonhos para um dia de muitos credores,
De haver falhado tudo como tropeçar no capacho,
De haver embrulhado tudo como a mala sem as escovas,
De haver substituído qualquer coisa a mim algures na vida.

Baste! É a impressão um tanto ou quanto metafísica,
Como o sol pela última vez sobre a janela da casa a abandonar,
De que mais vale ser criança que querer compreender o mundo —
A impressão de pão com manteiga e brinquedos,
De um grande sossego sem Jardins de Prosérpina,
De uma boa vontade para com a vida encostada de testa à janela,
Num ver chover com som lá fora
E não as lágrimas mortas de custar a engolir.

Baste, sim baste! Sou eu mesmo, o trocado,
O emissário sem carta nem credenciais,
O palhaço sem riso, o bobo com o grande fato de outro,
A quem tinem as campainhas da cabeça
Como chocalhos pequenos de uma servidão em cima.

Sou eu mesmo, a charada sincopada
Que ninguém da roda decifra nos serões de província.

Sou eu mesmo, que remédio!...

Álvaro de Campos