sexta-feira, 11 de março de 2011

Enredo

Parecia-se com um dia comum, na verdade um "estado" comum, uma cena repetida, uma história falida ou até mesmo muito boa e espirituosa.

Ela pegava as chaves, desligava as luzes de seu pequeno apartamento e ia, seguia, comparecia as suas vidas, rotinas, prazeres.

Uma cena tão típica e natural, uma cena de inicio de filmes onde as imagens falam e o narrador faz fluir.

Ela desceu as escadarias do prédio, olhou para o céu e sentiu aquela vontade e sentimento que emanava, mas gritava silenciosamente: eu posso!!!

Parecia um déjà vu , mas sentia naquele instante que aquilo era a vida.

Não é preciso estar "plugado" integralmente em atividades, eventos para comprovar que se vive. Viver ultrapassa jantares, badalações, exteriorizações e toda essa mitificação que o próprio ser humano criou afim de se iludir (suposição mais sensata). 

Iludir-se as vezes se faz necessário ao lado de algo que nós mesmos nem sabemos ou temos consciência de que está acontecendo.

Caímos em contradição ou percebemos que fazemos parte de uma fraude e desfazemos essa identidade, muitas vezes roubada, ou nunca percebemos e a tomamos como nossa verdade absoluta, o que não é ruim, pois se não temos consciência não é fraude.

Não estou julgando, que fique bem claro, apenas penso que muitas vezes contruímos um eu que nem mesmo sabe qual determinação prática deve ter quando é escolhido, imagine fazer parte de infinitas histórias mantendo fidelidade identitária com seu 'eu' original!
Compreenda que é uma questão de acordo com o meio e as circunstâncias e isso não diminui o quanto é nobre escolher o 'eu' e enquadra-lo na realidade do agora.

Tecnicamente o tempo existe, mas esse tempo pode ser individual?

O tempo é universal e imutável?

Subjetivamente falando, quanto tempo é preciso para que ocorra as transferências e adequações necessárias para a construção institiva dos comportamentos e "estares" individuais?

O narrador para e deixa a história acontecer por si só, assim as vidas personificadas ganham sentido e direito de se escreverem ou interpretarem seus pápeis.
E a história começa...

Meio?

Fim?

Pego a meada, o pedaço que não estava em cena, mas que justifica toda ação posterior.






quarta-feira, 9 de março de 2011

Estalo

Eu te permito.

Seja.

Ultimamente tenho sonhado muito e isso me perturba, na verdade tenho me debruçado em pesadelos terríveis e constrangedores.

Profundamente me perco e quase entro em inércia, meu alvo é delimitado de acordo com o que quero, mas sinto e então fujo ao que quero.

Ao amor eu deixo as faltas, as súplicas, meus medos e os acasos que rodeiam o caminho mais curto.

Ao amor deixo a minha solidão, a ausência, a deformidade do que é desejo.

Ao amor peço perdão, peço paz, sossego, peço paz mais uma vez e sigo.

Entro em pacto com ele e finjo ser imune.

Choro, choro e assim derramo o que petrifica minha vida por dentro, choro e assumo a responsabilidade de seguir em frente, choro e ouso ser feliz.

Eu mereço.

Não me preocupam as ausências, mas sim as faltas.

Finquei raízes em terras não férteis, meu sumo é amargo e sou tragado, como um viciado que se entrega ao momento do ir e vir de fumaça.

Eu te sugo, sou seu suco, penetra minha seiva, rejeita a fertilidade de outras terras e escraviza minha raiz em tua raiz.

Encarna e debruça tua dor em mim, eu suporto.

Mas não te envenenas. Não te deixas e não me deixa, mas não te envenenas.