domingo, 2 de maio de 2010

Metódo

Chegava do trabalho e como num meticuloso ritual, colocava a bolsa em cima da cama, virara a esquerda e sua toalha e chinelos estavam lá.

O cheiro de café recém feito exalava por toda a casa.

Lígia ia tomar banho e tudo estava no seu devido lugar, Maria Lúcia sua irmã, era uma espécie de empregada e cuidava para que tudo estivesse ao gosto de Lígia.

Ao contrário do que pode parecer não estou lhes contando mais um conto de fadas ou história da irmã boazinha e da irmã má.

Exponho escolhas, o mundo que cada uma por compaixão ou sonhos escolheu.

Uma delas guiou sua vida sempre em torno do servir com intuito de ser agraciada pelos seus méritos.

Essa buscou o profissionalismo no que sabia fazer e durante anos se dedicou a um propósito escolhido pelas circunstâncias. 

Era metódica, arrogante, mas de bons modos meticulosamente premeditados.

Em meio a leituras superficiais de romances água com açúcar foi absorvendo a fragilidade de uma mulher sonhadora e tola.

Apaixonou-se pelo primeiro príncipe e dedicou anos de uma construção de personalidade a um único homem. 

Continuou seus hábitos; trabalho, compras de cremes de beleza, trabalho, leitura de romances, trabalho, sonhos, trabalho, ilusão do príncipe encantado, trabalho, repouso.

Dedicava-se tanto ao trabalho que se perdia na exaustão de querer ser a melhor e esquecia de cuidar de si mesma.

Seu príncipe cansou.

Todos os romances foram lidos.

O tempo passou.

E Lígia não se dava conta da não vida ao seu redor.

Com o tempo veio a velhice. Por mais que tivesse trabalhado não construiu uma base sólida, pois não passava de uma técnica contábil. Mesmo sendo uma das melhores na empresa que trabalhava não ousou, não tomou decisões necessárias e apropriadas. 

Contentou-se com pouco e em sua inexperiência do que é 'muito', achou que era feliz.
Hoje Lígia tem setenta e dois anos, é aposentada, não casou nem nutriu qualquer tipo de relacionamento, é amparada por Maria Lúcia, tem frequentes pesadelos e está praticamente cega devido um glaucoma.

Chora diante da vida e se arrepende amargamente pelo não fazer, não ousar, não amar.
Pede socorro silenciosamente e em cada gesto agressivo é posta à prova. 
Em cada palavra denuncia uma vontade de mudar, tentar de novo e abraçar o mundo. 
Lígia hoje vê o que no passado nunca ousou sonhar.

Quanto a Maria Lúcia?

Conto uma outra vez.



Nenhum comentário:

Postar um comentário

Pluralize.