sexta-feira, 28 de maio de 2010

Ontem


O que é Possível?
Qual a palavra, o gesto, o certo, o errado?
Existe o necessário e o impossível e no meio deles o Possível.
Como se para de amar?
Quando vou parar de perguntar?
Dessa vez quero escrever assim; perguntando, inversamente, contraditoriamente e me deixando.
Sabe o amor?
Então amplifica o que você conhece sobre o amor e transporta para o todo, agora finge que esse todo é você e depois entende como te amo.
Amar é vasto e minha capacidade de amar é infitinita. E amo, amo, amo...amplamente entre significantes e significados.
Não jogamos mais, não esquecemos nunca.
Eu bebia mais e você bem menos, você me observava e dizia: estou relendo seus traços, novas e velhas expressões.
Desejo; essa é a palavra de ordem, mas será que apenas ela nos guia?
Nossa alma veio única e eu sou parte igual da tua diferença, nos completamos?
O que fazer com toda essa reticência da nossa vida e como deixar o ontem e refazer um novo hoje?
Jogo e uso todas as cartas, mas confudo teu blefe e perco tudo.
Encontro as respotas em outros contextos, sua busca é minha busca, somos insanos e vivemos em ciclos inacabados de sentimentos.
Nosso relacionamento é um eterno diálogo com nós mesmos.
Sou feita de tua análise e te preservo até o fim, esse tal de sempre que se depara com o nunca duela entre o nosso agora.
Pergunto ao tempo, aos deuses e sigo sem resposta.
Abro Caio F. em plena madrugada e ele me grita: "Alguma coisa que jamais teria, e tão consciente estava dessa para sempre ausência que, por paradoxal que pareça, era completo nesse estado de carência plena."   
E no mesmo instante lembrei de uma frase assim: " Que vontade, que vontade enorme de dizer outra vez meu amor, depois de tanto tempo e tanto medo"
Então eu amei, amei a mim, assim como nós sabemos que amo a mim e então te encontrei. 
"Alguma coisa explodiu, partida em cacos. A partir de então, tudo ficou ainda mais complicado. E mais real."
 ...


domingo, 2 de maio de 2010

Metódo

Chegava do trabalho e como num meticuloso ritual, colocava a bolsa em cima da cama, virara a esquerda e sua toalha e chinelos estavam lá.

O cheiro de café recém feito exalava por toda a casa.

Lígia ia tomar banho e tudo estava no seu devido lugar, Maria Lúcia sua irmã, era uma espécie de empregada e cuidava para que tudo estivesse ao gosto de Lígia.

Ao contrário do que pode parecer não estou lhes contando mais um conto de fadas ou história da irmã boazinha e da irmã má.

Exponho escolhas, o mundo que cada uma por compaixão ou sonhos escolheu.

Uma delas guiou sua vida sempre em torno do servir com intuito de ser agraciada pelos seus méritos.

Essa buscou o profissionalismo no que sabia fazer e durante anos se dedicou a um propósito escolhido pelas circunstâncias. 

Era metódica, arrogante, mas de bons modos meticulosamente premeditados.

Em meio a leituras superficiais de romances água com açúcar foi absorvendo a fragilidade de uma mulher sonhadora e tola.

Apaixonou-se pelo primeiro príncipe e dedicou anos de uma construção de personalidade a um único homem. 

Continuou seus hábitos; trabalho, compras de cremes de beleza, trabalho, leitura de romances, trabalho, sonhos, trabalho, ilusão do príncipe encantado, trabalho, repouso.

Dedicava-se tanto ao trabalho que se perdia na exaustão de querer ser a melhor e esquecia de cuidar de si mesma.

Seu príncipe cansou.

Todos os romances foram lidos.

O tempo passou.

E Lígia não se dava conta da não vida ao seu redor.

Com o tempo veio a velhice. Por mais que tivesse trabalhado não construiu uma base sólida, pois não passava de uma técnica contábil. Mesmo sendo uma das melhores na empresa que trabalhava não ousou, não tomou decisões necessárias e apropriadas. 

Contentou-se com pouco e em sua inexperiência do que é 'muito', achou que era feliz.
Hoje Lígia tem setenta e dois anos, é aposentada, não casou nem nutriu qualquer tipo de relacionamento, é amparada por Maria Lúcia, tem frequentes pesadelos e está praticamente cega devido um glaucoma.

Chora diante da vida e se arrepende amargamente pelo não fazer, não ousar, não amar.
Pede socorro silenciosamente e em cada gesto agressivo é posta à prova. 
Em cada palavra denuncia uma vontade de mudar, tentar de novo e abraçar o mundo. 
Lígia hoje vê o que no passado nunca ousou sonhar.

Quanto a Maria Lúcia?

Conto uma outra vez.