terça-feira, 27 de abril de 2010

Quase lá

Ela tinha cinqüenta e quatro anos, era loira, mediana, popular, mas de uma elegância invejável. Ela não trabalhava, era rica, divorciada, boa e infeliz.

Ela era linda.
Toda semana recebia amigos em sua casa e toda semana algo estava diferente. Alguns achavam que era mania, outros uma obsessão, mas era muito claro ela era uma mulher, sim, uma mulher de cinqüenta e quatro anos e era solitária. Não tinha filhos, não amava mais, não saia, recebia apenas bons e velhos amigos, tomava chá e assistia à novela, mas sempre algo estava diferente.

O sofá, a estante, o vaso, as flores, a mesa, sempre, sempre. Não sabiam se era um habito, mas ela sempre mudava as coisas de lugar. Seus móveis iam desgastando tanto com o tempo quanto com o rebuliço que fazia. Quando saia de casa, algo muito raro de acontecer, chegava a tremer como alcoólatra em abstinência, mas imagina, sua abstinência era dessa tal compulsão de mudar os objetos da casa. Chegava nervosa como cachorro doido e começava a mudar tudo, todos os dias. Antes do jantar tomava chá de erva doce, fumava um cigarro, tomava banho e revirava tudo para reintegrar as coisas em seus devidos lugares como costumava dizer.

Depois de anos reintegrando objetos, Vera iniciou um novo hábito, agora ela estava doando suas coisas, com a intenção de dar novos ares ao ambiente. Começou por roupas, peças de cama, sapatos, bolsas. Evoluiu para artigos de cozinha, enfeites, quadros, móveis, eletrônicos. Vera estava se desfazendo de tudo, mas tinha um detalhe, não estava repondo nada. Apesar de toda mudança e doação de objetos sua vida não mudava, sua casa continuava linda, mas Vera não tinha beleza. Encerrou visitas, parou de fumar, continuou com o chá e percebeu que quanto mais mudava mais triste ficava, mas desorganizada sua cabeça pensava e decidiu inverter a situação. Decidiu se livrar de tudo e se encontrar, pois percebeu que não era feliz, não se enquadrava no contexto e não ia fazer sucesso algum.

Pois é, o diretor juntou os pedaços, administrou o tempo, encerrou as horas, reproduziu minutos, mas não alcançou o alvo.

O diretor elogiou, foi cordial, brincou, falou mal e agradeceu.

O diretor dirigiu, mas não passou disso. A cena foi feita, a atriz contribuiu e Vera foi arquivada como mais Uma.

Uma tentativa talvez.


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