quarta-feira, 21 de abril de 2010

Preços populares

Júlia tinha uma quase casa, uma quase família, um quase gato, um quase amor.


Júlia era feliz.


Gostava de fazer balé, mas não era boa bailarina, gostava de cantar, mas era apenas afinada, gostava de amar, mas do amor não conhecia nada.


Júlia era assim; feita de uma quase ali, um quase acolá.


Júlia era feliz.


Um dia assistia à novela e assistia aquela cena tão comum de café da manhã em família, percebeu que não tinha a tal cena comum, mas ainda assim, Júlia era feliz.


Saindo do trabalho foi em uma dessas lojas de artigos baratos e decidiu comprar coisinhas. Encontrou um porta-retratos, desses que vem com uma foto de calendário, encontrou um conjunto de xícaras lindo, encontrou bandejas para fazer gelo em formato de frutas, saboneteiras que brilham no escuro, tapetes, conchas, talheres, vasos, vidros, pratos. Comprou tudo e voltou para casa cheia de sacolas.


Júlia decidiu mudar, começou pela casa, pela ida a loja e decidiu de fato ter um lar, formar uma família, não alugar mais animais de estimação, entregar-se de verdade ao amor e ver no que dava.


Procurou suas especialidades, descobriu que cozinhava divinamente, que gostava de exercitar-se, de sair com os amigos, de viver.


Largou o balé, agora cantava só por diversão e descobriu o amor.


Júlia apaixonou-se por Léo, entregou-se a Léo, viveu para Léo e construiu uma família.


Léo por sua vez traiu Júlia, amou outra mulher, teve um filho fora do casamento, mas Júlia, a menina que não tinha talento para o balé, a adolescente que sonhava com o café da manhã da novela, a mulher que alugava gatos, a senhora que descobriu que foi traída, essa Júlia era feliz.

Decretou assim ser e morrer. Quem vivia de uma quase teve de um tudo.


Por fim, Júlia era feliz.


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