quarta-feira, 21 de abril de 2010

Dissipar-se

Ocorre bem antes, antes de entender, antes de preocupar-me, antes de me jogar, antes mesmo de estar entregue.


Depois de uma noite de quase sono acordo cedo e a primeira coisa que me vem à cabeça é neutra.
Neutra porque só quero sair de casa e caminhar, isso mesmo, lavei o rosto, coloquei uma roupa apropriada e fui. Sem música, sem cura e a procura de perdão. Meu senso de observação estava aguçado, mas hoje, em relação a mim. Comecei a me ver por dentro e me desconstruir, desconstruir como pessoa, como ser humano tentando eliminar o kitsch da minha vida para assim me reintegrar ao neutro. As pessoas me olhavam, eu cumprimentava, as pessoas caminhavam e eu pensava em cada uma delas, suas vidas, seus sonhos, seus medos e desejos. Procurava nelas o que perco, esqueço e bloqueio, então começa a chover. É absurdo porque justo o dia e que acordo disposta a fazer a tal caminhada, justo quando decido ser saudável a chuva cai. Olho literalmente pro céu e me aborreço com Ele.


Grito internamente: quero caminhar. Caminhar entendeu?


Como resposta chove mais forte e eu continuo, vejo as pessoas entrando em seus carros, vejo algumas correndo em direção à padaria, as calçadas, as marquises, mas continuo forte e decidida a não interromper meu percurso. Não tiro os óculos, não corro, não reclamo, está feito, quero caminhar. De repente a chuva cessa, diminuo os passos, observo ao redor e vejo-me nos outros. Vejo o que procurava, percebo que sou igual a eles. Peço chuva então, quero purificar minha alma e quero já. Absorver tudo é o que mais quero, mas não posso sozinha, aliás, não tenho esse direito. Percebi que a chuva não vinha mais, então voltei para casa e coloquei água para ferver.


Tenho inquietação e tudo me provoca pergunta, voltei e a água ainda esquentava. Decidi observar a inquietação, mas a da água que começava a criar bolhinhas no fundo da panela. Achei aquilo maravilhoso, a água inquieta por querer sair dali. Ela começava a ferver e vejo que agora precisa sair. Começa seu processo de evaporação, ou será libertação?


A água aprisionada a ela mesma por ser água?


Ponho a mesa e penso sobre liberdade, quanto mais você a persegue mais ela te aprisiona e ao invés de ser um direito passa a ser uma obrigação. Será que estou aprisionada a mim? Inquieta por estar presa a mim?


Tenho medo da extensão disso tudo. É preciso medir, digo medir de maneira ampla, minha única dimensão é a embriaguez do silêncio e dele tenho medo. Vivo intensamente e meu mundo é rápido demais. O telefone tocou...


Não para de tocar e não quero atender, não quero que me encontrem, pois decidi desintegrar, desintegrar por meio da divisão atômica e extremamente artificial, porque agora só posso me dividir artificialmente e de forma oposta encontrar os dois pólos. Preciso deslavar minha alma. Ah, deixa eu te contar uma coisa!


A água ferveu, secou e agora está liberta.


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