sexta-feira, 30 de abril de 2010

Cuca Fundida - Woody Allen

Conto: O cara 

Eu estava tranqüilamente em meu escritório, limpando os restos de pólvora do meu 38, e imaginando qual seria o meu próximo caso. Gosto muito dessa profissão de detetive particular e, embora ela me obrigue de vez em quando a ter as gengivas massageadas com um macaco de automóvel, o aroma das abobrinhas até que faz a coisa valer a pena. Sem falar nas mulheres, nas quais não costumo pensar muito, exceto quando estou respirando. Assim, quando a porta do meu escritório se abriu e uma loura de cabelos compridos, chamada Heather Butkiss, entrou rebolando e dizendo que posava para determinadas revistas e que precisava de minha ajuda, minhas glândulas salivares passaram uma terceira e aceleraram. Estava de minissaia e usava uma camiseta justa, tinha mais curva do que uma tabela estatística e seria capaz de provocar uma parada cardíaca até num caribu.

“O que quer que eu faca, meu bem?” - perguntei logo, para não criar maiores intimidades.

“Quero que encontre uma pessoa.”

“Uma pessoa desaparecida? Já tentou a polícia?”

“Não exatamente, Sr. Lupowitz.”

“Pode me chamar de Kaiser, meu bem. OK, quem e o cara?”

“Deus.”

“Deus?”

“Isso mesmo. Deus. O Criador, o Princípio de Todas as Coisas, o Onisciente, Onipresente e Onipotente. Quero que O encontre para mim.”

Olhem, já tive alguns malucos no escritório antes, mas, com uma forma física daquelas, você é obrigado a ouvir.

“Por que quer que eu te encontre Deus?”

“Isso é da minha conta, Kaiser. Só quero que O encontre.”

“Olhe, meu bem, acho que você procurou o detetive errado.”

“Porquê?”

“A menus que você me dê os dados.”

“Está bem, eu dou”, ela respondeu, mordiscando ligeiramente o lábio inferior e levantando a saia para ajustar as meias, lá no alto das coxas, só porque viu que eu estava olhando. Naturalmente, fiz de conta que não vi.

“Vamos jogar limpo, meu bem” - eu disse, implacável.

“Bem, a verdade é - eu não poso para revista nenhuma.”

“Não?”

“Não. Nem meu nome é Heather Butkiss. Chamo-me Claire Rosensweig e sou estudante de filosofia. História do Pensamento Ocidental, você sabe. Tenho que entregar minha tese até janeiro. Sobre a religião ocidental. Todos os meus colegas estão preparando teses especulativas. Mas, na minha, quero ter certeza. O Professor Grebanier disse que se alguém provar alguma coisa, ganhará nota máxima. E papai disse que me daria um Mercedes se eu conseguisse.”

Abri um maço de Lucky Strike e um pacotinho de chicletes e enfiei um de cada na boca. A história dela estava começando a me interessar. Intelectualóide mimada. Corpo nota 10: e um QI que eu gostaria de conhecer melhor.

“Pode me dar uma descrição de Deus?”

“Nunca O vi.”

“Então como sabe que Ele existe?”

“Isso compete a você descobrir.”

“Oh, que ótimo! Quer dizer que você não sabe como e a cara Dele e nem por onde devo começar?”

“Para dizer a verdade, não, Embora eu suspeite que Ele esteja em toda parte. No ar, nas flores, em você, em mim - talvez até nesta cadeira.”

“Estou entendendo,” Ela era panteísta. Tomei nota mentalmente daquilo e prometi que iria dar uma espiada por aí - por 100 dólares ao dia, mais as despesas e um convite para jantar. Ela sorriu e disse tudo bem. Descemos juntos pelo elevador. Estava ficando escuro lá fora. Podia ser que Deus existisse, mas o certo é que havia naquela cidade um bando de caras que iriam tentar me impedir de encontrá-lo.

Minha primeira pista era o Rabino Itzhak Wiseman, que há tempos me devia um favor por eu ter descoberto quem estava esfregando carne de porco em seu chapéu. Desconfiei de que havia algum perigo iminente, porque ele estava apavorado quando o procurei.

“É claro que este de quem você está falando existe, mas não posso nem dizer seu nome, senão Ele me fulmina com um raio. Não consigo entender por que alguns são tão sensíveis quanto a um simples nome.”

“Já O viu alguma vez?”

“Se eu O vi? Você deve estar maluco. Posso me dar por feliz quando consigo ver meus netos.”

“Então como sabe que Ele existe?”

“Que pergunta mais cretina! Como eu poderia usar um terno caro como esse se Ele não existisse? Olhe aqui, sinta o tecido. Caríssimo! Como posso duvidar de sua existência?”

“Mas só isso?”

“E você acha pouco? E o Velho Testamento, o que acha que é? Um suplemento esportivo? E como acha que Moisés conduziu os hebreus para fora do Egito? Sapateando e gritando oba? E pode me acreditar: é preciso mais do que um alisador de cabelo para domar as ondas encapeladas do Mar Vermelho e reparti-las ao meio. É preciso poder!”

“Quer dizer que o Homem é durão, hem?” “Duríssimo. Mais do que você pensa.” “E como sabe disso tudo?”

“Porque nós somos os eleitos. Cuida de nós como de Seus filhos e, aliás, este é um assunto que algum dia ainda vou discutir com Ele.”

“O que você paga a Ele para ser um dos eleitos?”

“Não posso responder.”

E foi isso aí. Os judeus estavam todos no esquema. Sabem, aquela velha jogada de pagar proteção. Toma lá, dá cá. E, pelo que o Rabino falava, Ele tomava mais do que dava. Peguei um táxi e fui ao Danny, um salão de bilhares na 10.a Avenida. O gerente era um sujeitinho raquítico e ligeiramente morrinha.

“Chicago Phil está por aqui?” - perguntei.

“Quem está querendo saber?”

Agarrei-o pelas lapelas, no que devo ter também agarrado alguma pele.

“O que você perguntou, seu merda?”

“Está lá nos fundos”, ele respondeu, mudando subitamente de atitude.

Chicago Phil. Falsificador, assaltante de bancos, meliante tristemente célebre e ateu confesso.

“O Cara não existe, Kaiser. O resto e conversa fiada. Cascata pura. Essa história de Chefão e farol. Na realidade, é uma quadrilha inteira que age em Seu nome. A maior parte sicilianos. Internacional, sacou? Mas sem essa de dizer que um deles é O Cara. Só se for o Papa,”

“Gostaria de talar com o Papa”, arrisquei.

“Posso ver isso pra você”, respondeu, me dando uma piscadela.

“O nome Claire Rosensweig significa alguma coisa pra você?”

“Não.”

“E Heather Butkiss?”

“Butkiss? Hei, claro! É aquela oxigenada que estuda metafísica.”

“Metafísica? Ela disse filosofia!”

“Estava mentindo. É professora de metafísica. Andou transando por uns tempos com um professor de filosofia.”

“Panteísta?”

“Não. Empiricista, se bem me lembro. Um reacionário. Rejeitou completamente Hegel ou qualquer outra metodologia dialética.”

“Um daqueles, não c?”

“Isso mesmo. Antigamente, tocava bateria num trio de jazz. Depois se viciou em Positivismo Lógico. Quando isso também mixou, tentou Pragmatismo. A última notícia que ouvi dele foi a de que tinha roubado uma fortuna para fazer um curso de Schopenhauer na Universidade de Colúmbia. A quadrilha anda atrás dele para pegar suas apostilas e vendê-las por bom preço.”

“Obrigado, Phil.”

“Vá por mim, Kaiser. O Cara não existe. Branco total. Eu não passaria metade dos cheques sem fundo ou engrupiria os outros, como faço, se tivesse a menor sensação da autenticidade do Ser, O universo é estritamente fenomenológico. Nada é eterno. Tudo é sem sentido.”

“Quem ganhou o 5° páreo?”

“Santa Baby.”

Tomei uma cerveja numa birosca chamada O'Rourke's e tentei juntar as pontas, mas nada ligava com nada. Sócrates tinha se suicidado - pelo menos, era o que corria pelas bocas. Cristo fora assassinado. Nietzsche pirara de vez. Se o Cara realmente existisse, não queria que ninguém tivesse certeza. E por que Claire Rosensweig teria mentido? Será que Descartes estava certo? O universo era mesmo dualístico? Ou a razão estaria com Kant, que condicionou a existência de Deus a certos padrões morais?

Aquela noite fui jantar com Claire. Dez minutos depois de pagar a conta, já estávamos na horizontal e vocês podem pensar o que quiserem, desde que se trate de Pensamento Ocidental. Ela teria ganho medalhas de ouro em várias provas olímpicas, inclusive salto com vara e 100 metros de peito. Em seguida, deitou-se no travesseiro ao meu lado, ocupando também o meu travesseiro com sua cabeleira. Acendi um cigarro e, enquanto olhava para o teto, perguntei:

“Claire, e se Kierkegaard estivesse certo?”

“Sobre o quê?”

“Sobre o conhecimento, o verdadeiro conhecimento. E se dependesse da nossa fé?”

“Isso é absurdo.”

“Não seja tão racional.”

“Não estou sendo racional, Kaiser.” Ela também acendeu um cigarro. “Não me venha com esse papo ontológico. Pelo menos agora. Não estou com saco.”

Ela estava perturbada. Quando me inclinei para beijá-la, o telefone tocou. Ela atendeu.

“É pra você.”

A voz do outro lado era a do Sargento Reed, da Homicídios.

“Continua procurando Deus?”

“Continuo.”

“O tal Onipresente, Onisciente e Onipotente? Criador de Todas as Coisas e tal e coisa?”

“Ele mesmo.”

“Alguém com essa descrição pintou no necrotério. Venha dar uma olhada.”

Fui correndo. Quando cheguei lá, não tive dúvidas: era Ele. E, pelo Seu aspecto, tinha sido um trabalho profissional. Bati um rápido papo com o tira de plantão.

“Já estava morto quando O trouxeram”, ele disse.

“Onde O encontraram?”

“Num armazém do subúrbio.”

“Alguma pista?”

“Trabalho de um existencialista. Isso é óbvio.”

“Como sabem?”

“Sem método, aleatório, como se não seguisse nenhum sistema. Puro impulso.”

“Um impulso irresistível?”

“É isso aí. Logo, você é um dos suspeitos, Kaiser.”

“Eu??? Porquê?”

“Todo mundo sabe como você se sentiu sobre Ele.”

“Está certo, mas isso não quer dizer que eu O tenha matado.”

“Por enquanto não, mas é um dos suspeitos.”

Lá fora, na rua, respirei fundo e tentei clarear a cabeça. Tomei um táxi para Newark e, lá chegando, caminhei mais um quarteirão e entrei num restaurante italiano chamado Giordino's. Claro, numa mesa dos fundos, lá estava Sua Santidade. Era o Papa, sem dúvida. Sentado entre dois caras que eu já tinha visto numa lista de Mais Procurados.

Ele mal levantou os olhos de seu fettucine. Apenas disse:

“Sente-se.” Estendeu-me o anel. Abri meu melhor sorriso, mas não o beijei. Ele ficou desapontado e eu achei ótimo. 1 a 0 para mim.

“Esta servido de fettucine?”

“Obrigado, Santidade. Mande brasa.”

“Não quer nada? Nem salada?”

“Acabei de comer.”

“Como quiser, mas depois não se queixe. O tempero aqui é ótimo. Ao contrario do Vaticano, onde não conseguem fazer nada comível.”

“Pretendo ir direto ao assunto, Pontífice. Estou à procura de Deus.”

“Pois veio à pessoa certa.”

“Quer dizer que Ele existe?”

Os três riram muito. O cara ao meu lado disse:

“Que gracinha! O rapaz quer saber se Ele existe!''

Procurei uma posição mais confortável na cadeira e depositei todo o peso do meu pé sobre seu dedo mindinho.

“Desculpe”. Mas notei que ele tinha ficado uma onça. O Papa continuou:

“Claro que existe, Lupowitz. Mas eu sou o único que se comunica com Ele. Sou o Seu porta-voz.”

“Por que você, meu chapa?”

“Porque só eu uso essa túnica vermelha.”

“Esse roupão aí?”

“Não zombe. Toda a manhã, quando me levanto, visto esta túnica e penso comigo: Estão falando com Ele! O hábito faz o monge. Pense bem: se eu andasse por aí, de jeans e rabo-de-cavalo, acabaria sendo preso por vadiagem.”

“Quer dizer que é tudo cascata. Não existe Deus.”

“Não sei. Mas que diferença faz?”

“Você nunca pensou que a lavanderia podia atrasar a entrega da sua túnica, tornando-o igualzinho a nos?

“Uso sempre o serviço urgente. Vale a pena, só pra garantir.”

“Claire Rosensweig quer dizer alguma coisa?”

“Claro. Trabalha no Departamento de Ciências de uma faculdade dessas por aí.”

“Ciências, você disse? Obrigado!”

“Obrigado por quê?”

“Pela resposta, Pontífice.”

Peguei o primeiro táxi (o qual foi o quarto ou o quinto), e me mandei. No caminho parei em meu escritório e chequei algumas coisas. Enquanto dirigia para o apartamento de Claire, juntei as peças do quebra-cabeça e, pela primeira vez, elas se ajustaram, quando Claire abriu a porta, usava um peignoir diáfano e parecia grilada.

“Deus morreu! A polícia esteve aqui. Estão te procurando. Acham que o criminoso foi um existencialista,”

“Nada disso, meu bem. Foi você.”

“Corta essa, rapaz.”

“Foi você quem o matou.”

“Que história é essa?”

“Você mesma. Nem Heather Butkiss nem Claire Rosensweig, mas simplesmente Dra. Ellen Shepherd.”

“Como descobriu meu nome?”

“Professora de física na Universidade de Bryn Mawr. A mais jovem catedrática de todos os tempos por lá. Nas férias deste ano ligou-se a um baterista de jazz, viciado em filosofia. Ele era casado, mas isso não a impediu. Passou com ele uma ou duas noites e achou que estava apaixonada. Mas não deu certo porque Alguém se interpôs entre vocês: Deus. Sacou, meu bem? Ele acreditava no Cara, mas você, com a sua mente estritamente científica, precisava ter certeza.”

“Não é nada disso, Kaiser. Eu juro!”

“Assim você fingiu estudar filosofia porque isto lhe daria uma chance para eliminar certos obstáculos. Livrou-se de Sócrates com certa facilidade, mais aí Descartes entrou em cena e você serviu-se de Spinoza para ver-se livre de Descartes. Mas quando Kant apareceu, você descobriu que tinha de livrar-se dele também.”

“Você não sabe o que está dizendo.”

“Entregou Leibnitz às baratas, mas isso não bastava, porque você sabia que se alguém acreditasse em Pascal você estaria perdida, e assim tinha de livrar-se dele também. Mas foi aí que você cometeu um erro, porque confiou em Martin Buber. E o erro foi o de que ele acreditava em Deus. Portanto, você mesma teve de matar Deus.”

“Kaiser, você esta louco!”

“Não, meu bem. Você se fingiu de panteísta e isto lhe deu acesso a Ele - se Ele existisse, como existe. Foi com você à festa de Shelby e, quando Jason estava distraído, você O matou.”

“Quem são Shelby e Jason?”

“E que diferença faz? A vida é absurda assim mesmo.”

Ela começou a tremer.

“Kaiser, você não vai me entregar, vai?”

“Claro que vou, meu bem. Quando Deus é mandado para o pijama-de-madeira, alguém tem de pagar a conta.”

“Oh, Kaiser, vamos fugir juntos. Só nós dois! Vamos esquecer essa história de filosofia e nos dedicarmos, quem sabe, à semântica!”

“Nada feito, meu bem. Já está decidido.”

Ela debulhou-se em lágrimas enquanto descia as alças de seu peignoir e, num instante, eu estava diante de uma Vênus nua cujo corpo parecia dizer: Pegue-me - Sou toda sua. Uma Vênus cuja mão direita me fazia cafuné nos cabelos, enquanto sua mão esquerda me apontava uma .45 na nuca. Desviei-me com um sopetão e esvaziei o meu .38 em seu lindo corpo antes que ela puxasse o gatilho. Deixou cair a arma e fez uma cara de quem não estava acreditando no que acabara de acontecer.

“Como foi capaz de fazer isso, Kaiser?”

Ela estava morrendo depressa, mas ainda tive tempo de dar-lhe o golpe de misericórdia.

“A manifestação do universo como uma idéia complexa em si mesma, em oposição a estar no interior ou no exterior do próprio e verdadeiro Ser, é, inerentemente, um nada conceituai ou um Nada em relação a qualquer forma abstrata de existência, de existir ou de ter existido perpetuamente, sem estar sujeita às leis de fisicalidade, de movimento ou de idéias relativas à antimatéria ou à falta de um Ser objetivo ou a um Nada subjetivo.”

Foi uma definição sutil, mas acho que ela entendeu muito bem antes de morrer.



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Genialidade.
Cineasta, roteirista, escritor, ator e músico.
Woody Allen faz parte dessa gama de multifacetados. Muito conhecido por seus filmes que falam quase sempre sobre neuroses da vida cotidiana, Woody também passeia pelo mundo da literatura.
O conto 'O cara' pertence ao livro Cuca Fundida que é um misto de filosofia e impressões muito pessoais do escritor.

Vontade de ler na integra?
Download: http://www.4shared.com/document/ehpwuCJe/woody_allen_-_cuca_fundida.htm


_____________________________________________________________ J. Góis _____________________________________







quinta-feira, 29 de abril de 2010

As ruas e esquinas parecem diferentes, os bancos, os pássaros. Vejo tudo e me pergunto sobre o nada. 
 
Entro em regresso em busca de um passado que já não volta, meu sentir faltaé tão mais intenso do que eu e então pergunto sobre como viver.
Quero uma fuga para um lugar bem distante onde eu dite as regras e onde seja soberana.
 

Eu te disse, lembra?
 

Disse como os reflexos atrapalham, disse como a saudade não dói, o que dói é a falta, te contei sobre a falta e sobre o vício de reencontrar o que se teve.
 

Meu medo agora é ter.
 

Tenho uma vaga idéia de alucinação, não precisa ser de viés químico, vem de metabolismo, mas é preciso que seja agora. Cumpro o meu ritual, mas há algo que falta, sei bem disso, sei sobre as flores, sobre as canções, os filmes, sei sobre as cidades, mas não tolero mais a situação de não poder dizer: sei de você
 

Você é meu estranho, meu insólito, meu ás, mas não sei de você.
 

Eu te aborreço, te procuro, e assim te perco, mas não sei de você.
 

Conheço teu corpo, teu cheiro, teu modo, te odeio, te esnobo, mas te desejo.
 

Quero definições, quero certezas, mas não há certezas, não há regras quando tento saber de você. Tudo que te falo tem muito de mim, minha palavra me denuncia, minha palavra é meu punhal, é alucinada de mim e agora eu começo a transcender, porque quando a palavra está em jogo é tudo ou nada, não marco passos falsos, encontro meu contexto e sigo a linha oblíqua da eternidade. 

Quebro e meu corpo precisa ser riscado por ritos pessoais, secretos e diários. 
Assim meu ambiente foi obrigado a viver sem cores e excessos, conheci o passado e parei de brincar com o tempo.

Observava e sentia um mundo diferente ao meu redor, sentia certa vibração, sentia que tudo encaixava da forma que a gente deveria sentir que encaixa e não como se deve.
Percebi então minhas divagações de por que e para que, já que meu vício resume o meu ponto de partida e todo ponto de partida tem um por quê


Tudo presta, mas nada se enquadra.

Sou absurda e faço parte da peça que inventaram, me puseram e nem perguntaram se gostaria de participar ou não.
Foi Ele.
A culpa foi Dele: o Alfa e o Ômega. Fui posta e devo arcar com o que me é dado em prova de sobrevivência.

Talvez te culpe pela premeditação da criação universal e te devote instintos não tão humanos assim. Somos parte de ti, mas qual é a porcentagem de tua veia humana já que és tudo?

Carta marcada

Porque quando encontro o Às das cartas às quais debruço meu suor e minha fúria procuro sustentar a leveza que vem, mas ela vem de dentro, pois sou íntima, nunca esqueça, sou íntima. 
Antes de tudo preciso encontrar a fatalidade que me envolve, me debruço no que é implícito e que por vezes dói.
Em minha espécie a dor sempre é necessária.
O quanto quero é o que posso. O que eu posso nem sempre me conduz, preciso do ar, mas não o que expiro, pois este é sujo. 

A inspiração é nata e estou quase completa, tenho aquilo que não posso buscar, pois o que busco é aquilo que você foge.
Sou poeta?
As respostas agora chegam, mas não tranquilizam. Perco a paz e na dança ( ou vida ) que ensaio nada me basta, então pergunta: O que me basta?
Não sei.
Procuro diariamente o néctar que sai das minhas veias, pois meu sangue pulsa e então sinto que vou complementando o que não é orgânico.
Sou o que se exprime, mas não é revelado. 

O que vejo na diferença é que já está tudo tão desgastado, mas ainda assim repito: minha entrega é ao que se faz singular.

Quero então complementar a imensidão de Ser e enquanto desvendo teu olhar procuro desprender-me do que já não é, pois eu Sou.
Eis minha interpretação do que é a vida e a vida seja ela esta inverdade do que eu recrio na culpa deslavada da vontade de entregar-me ao vicio de tudo que possa subverter em mim a nossa loucura. 

Nunca estou imune ao que me entrego, já que há um abismo entre os laços que unem a humanidade e o homem. O homem crê e eu sou apenas uma mulher revestida no acaso que se chama vida. A vida é minha continuação, já que todos possuem destinos e meu acaso é regado ao monismo do que me forma.
Então vejo a sordidez do que se transforma quando as notas da minha não-música se instauram em mim, percebo que já não encontro o elo entre o que me prende a você.
Diga-me agora quem é você, diga-me o que posso encontrar nesse teu eu que esconde atrás de máscaras a realidade do que se confunde entre o ato e o fato. Quem sabe a solidão de minha alma?
Faltam-me argumentos, eis que sou a configuração de um fruto intocado pelo que posso Ser ou Dever, te relato agora que o conflito está no devedor, por isso puxo o valete das cartas que outrora busquei. Entreguei-me a elas e diariamente puxo-as como se fosse um jogo o qual o destino divaga entre o momento do blefe e meu Straight Flush me deixando nua, pois um blefe exprime toda a verdade que fujo. 



Aposta

Não há verdade na justiça e minha ideologia sempre foi uma farsa, pois eu sempre tive ideais.


O homem é testado todos os dias e entre a glória e o poder sempre existe o erro. É preciso renúncia para conquistar um ideal. É preciso racionalizar, enquadrar verificando as possibilidades como num jogo, mas é preciso que também seja rápida e intuitiva como a vida.


Traço o foco e tenho a certeza de que valerá a pena.


Resolvi mexer no meu mundo através de objetos, minhas peças por mim e para mim. Quero viver sem raízes, mas algo me seduz e me diz pare.


Essa voz é minha.


Por mais passional que eu seja, haja e viva essa voz me diz pare. E quando me vejo através do espelho, enxergo aquilo que você não vê algo me impulsiona então essa voz me diz pare.


A única testemunha do óbvio era a Lua. Há uma secura em minha boca e não é sede, é apenas tudo o que não vivi e tirei do cerne das coisas, até sugar e desmaterializar, até meu corpo de fato ter sede.


Mergulho, bebo e ainda tenho sede. Entrei no sugestivo surrealismo que o ambiente me trazia, assim fui pincelando minha personagem. Meu corpo então foi reduzido às mãos. Minha pintura ainda estava embaçada, tinha muita cor e eu precisava de uma cor banal e única.


Infelizmente não tinha controle, minhas mãos entraram em conflito e agora eu Estava e não Era. Só tinha uma possibilidade de ser e encontrava-se no quadro branco que mesmo depois de ofuscado por cores irreais e impossíveis não perdeu sua essência: branco.


Foi assim que recebi um presente. A simbiose fornecida pelos semideuses, onde encontrei o alicerce do meu corpo, vomitei e foi à maneira mais viável de intimidar minha subjetividade, tornei-me vazia na contradição de sentir obscuridades. Não ouso te olhar, mas preciso dizer: sou filha de tua nostalgia.


Nesse impasse você homem descobre que é seu próprio inimigo e então percebe que enquanto houver duplicidade em sua estrada não conseguirá vencer, pois não pode derrotar a si mesmo.


Seus sentimentos o transformaram em bicho, mas você escolhe ser dama ou xadrez.


Racionaliza e não passa de mais um jogo.




terça-feira, 27 de abril de 2010

Último ato

Sabe o raio que não cai duas vezes no mesmo lugar?


A mulher que acha que o marido é fiel?


Que HIV é coisa de homossexual?


Que drogado é sempre o filho do vizinho?


Que triste é quem não casa?


Que amor é tudo e dinheiro não traz felicidade?


Sabe de tudo isso? De todos esses?


Diferentes em aspectos, em modos e afins, essa é sua genealogia, tão primitiva e atual. Uma espécie de divina procedência e nesse caso é procedência mesmo, linhagem de um mistério incógnito e minúsculo.


Em cada elemento sou uma reação química, pois minha natureza é ácida e camuflada. Já me rendi aos santos e orixás, mas minha seiva nega qualquer envolvimento que viole a oposição do que me forma.


Não faço pelos meus vícios, mas quem os fará?


Preservo uma imparcialidade, descobri que o corpo tem vontade própria e falo de puro osso e músculo.


Entenda, a pele é adversária do tempo, por isso preciso te falar sobre minha última vez.


Ando fraca e estou rendida.


A bebida não me sacia, minha alma está enjoada, mas permaneço acelerada. Permaneço para tentar ultrapassar as linhas do tempo, então percebo que o tempo não possui linhas, mas é tragicamente medido.


De fato não escolhi ser a exceção da regra, mas te peço; ama meu avesso e me sente. Tenho vivido uma sucessão de enganos e meu discurso soa tão falso quanto minha vida. Não quero ser culpada pelas tuas ilusões ou projetos de amor, pois odeio te amar e me prender a uma história inútil.


Você é a mentira a qual sustento minha vida, sabemos que o meu amor não existe, eu o invento para poder suprir a necessidade das regras.


Eu te alimento porque tenho medo de viver minha verdade, na verdade alimento o que dói em mim.


Ando esgotada das pessoas e venho me fechando cada vez mais. Escuto músicas que me refletem legitimamente, mas não encontro um alívio. O mundo me obriga a mostrar meu contrário e eu luto contra a obrigação de Estar. Sou resumo de um talvez consciente e premeditado e por ser assim não saiba amar.


Uso o curinga para divertir a platéia, de fato esse é o jogo que todos pagam para ver.


Por fim sou mais delatante nos bastidores e a profundidade do meu essencial muda a cada personagem.


Você me batiza, me abre, me sente. Como uma cruz erguida, vi a queda de tua forma e eu não tenho culpa. Juro!


Quero compor em linhas futuristas um Sol maior que o da minha orquestra, só quero o mundo a meu dispor.



Quase lá

Ela tinha cinqüenta e quatro anos, era loira, mediana, popular, mas de uma elegância invejável. Ela não trabalhava, era rica, divorciada, boa e infeliz.

Ela era linda.
Toda semana recebia amigos em sua casa e toda semana algo estava diferente. Alguns achavam que era mania, outros uma obsessão, mas era muito claro ela era uma mulher, sim, uma mulher de cinqüenta e quatro anos e era solitária. Não tinha filhos, não amava mais, não saia, recebia apenas bons e velhos amigos, tomava chá e assistia à novela, mas sempre algo estava diferente.

O sofá, a estante, o vaso, as flores, a mesa, sempre, sempre. Não sabiam se era um habito, mas ela sempre mudava as coisas de lugar. Seus móveis iam desgastando tanto com o tempo quanto com o rebuliço que fazia. Quando saia de casa, algo muito raro de acontecer, chegava a tremer como alcoólatra em abstinência, mas imagina, sua abstinência era dessa tal compulsão de mudar os objetos da casa. Chegava nervosa como cachorro doido e começava a mudar tudo, todos os dias. Antes do jantar tomava chá de erva doce, fumava um cigarro, tomava banho e revirava tudo para reintegrar as coisas em seus devidos lugares como costumava dizer.

Depois de anos reintegrando objetos, Vera iniciou um novo hábito, agora ela estava doando suas coisas, com a intenção de dar novos ares ao ambiente. Começou por roupas, peças de cama, sapatos, bolsas. Evoluiu para artigos de cozinha, enfeites, quadros, móveis, eletrônicos. Vera estava se desfazendo de tudo, mas tinha um detalhe, não estava repondo nada. Apesar de toda mudança e doação de objetos sua vida não mudava, sua casa continuava linda, mas Vera não tinha beleza. Encerrou visitas, parou de fumar, continuou com o chá e percebeu que quanto mais mudava mais triste ficava, mas desorganizada sua cabeça pensava e decidiu inverter a situação. Decidiu se livrar de tudo e se encontrar, pois percebeu que não era feliz, não se enquadrava no contexto e não ia fazer sucesso algum.

Pois é, o diretor juntou os pedaços, administrou o tempo, encerrou as horas, reproduziu minutos, mas não alcançou o alvo.

O diretor elogiou, foi cordial, brincou, falou mal e agradeceu.

O diretor dirigiu, mas não passou disso. A cena foi feita, a atriz contribuiu e Vera foi arquivada como mais Uma.

Uma tentativa talvez.


quarta-feira, 21 de abril de 2010

Nascimento

Um dia ele chegou. Abri a porta e adivinha, dei de cara com um início. Não sabia seu gênero, seu passado, mas percebi que veio a mim em forma de acaso.


O homem é feito do acaso do mundo, desprevenida percebi que fui posta a um novo começo e dessa vez decidi aceitar. Agradeci, fechei a porta e o acolhi.


Como um bicho fora de seu habitat não emitia sons, era de poucos gestos e parecia ter medo, mas o acolhi. Entendi como um presente do destino e um tipo desses não se pode recusar.


Era meigo e doce. De maneira imprevisível ele veio e me tomou por completo. 


Aos poucos ele foi crescendo, tomando forma e delimitando espaços. Apesar de bicho era humanizado e possuía uma incrível pontualidade de hábitos e vontades. Suas horas eram determinadas a partir de seu sono. Ele foi mudando e eu mitifiquei seus potenciais, para mim eram mais que oitenta.


Era gordo, branco e peludo.


Vomitava uma vez ao mês, fazia suas necessidades quatro vezes ao dia, bebia pouco leite e durante o dia beliscava inúmeras vezes seu alimento. Era forte, companheiro e a todo tempo extraia o melhor de mim. Mudou minha vida, rompeu meus paradigmas de felicidade e me fez esquecer o passado que eu não quis, mas contribui.


Começou a envelhecer e tornar-se mais uma vez o início. Era eloquente com os olhos, com os gestos, com os hábitos.


Era um filho, foi um filho.


Talvez o que eu não tive. Talvez o que eu não quis, mas era meu.









Preços populares

Júlia tinha uma quase casa, uma quase família, um quase gato, um quase amor.


Júlia era feliz.


Gostava de fazer balé, mas não era boa bailarina, gostava de cantar, mas era apenas afinada, gostava de amar, mas do amor não conhecia nada.


Júlia era assim; feita de uma quase ali, um quase acolá.


Júlia era feliz.


Um dia assistia à novela e assistia aquela cena tão comum de café da manhã em família, percebeu que não tinha a tal cena comum, mas ainda assim, Júlia era feliz.


Saindo do trabalho foi em uma dessas lojas de artigos baratos e decidiu comprar coisinhas. Encontrou um porta-retratos, desses que vem com uma foto de calendário, encontrou um conjunto de xícaras lindo, encontrou bandejas para fazer gelo em formato de frutas, saboneteiras que brilham no escuro, tapetes, conchas, talheres, vasos, vidros, pratos. Comprou tudo e voltou para casa cheia de sacolas.


Júlia decidiu mudar, começou pela casa, pela ida a loja e decidiu de fato ter um lar, formar uma família, não alugar mais animais de estimação, entregar-se de verdade ao amor e ver no que dava.


Procurou suas especialidades, descobriu que cozinhava divinamente, que gostava de exercitar-se, de sair com os amigos, de viver.


Largou o balé, agora cantava só por diversão e descobriu o amor.


Júlia apaixonou-se por Léo, entregou-se a Léo, viveu para Léo e construiu uma família.


Léo por sua vez traiu Júlia, amou outra mulher, teve um filho fora do casamento, mas Júlia, a menina que não tinha talento para o balé, a adolescente que sonhava com o café da manhã da novela, a mulher que alugava gatos, a senhora que descobriu que foi traída, essa Júlia era feliz.

Decretou assim ser e morrer. Quem vivia de uma quase teve de um tudo.


Por fim, Júlia era feliz.


Dissipar-se

Ocorre bem antes, antes de entender, antes de preocupar-me, antes de me jogar, antes mesmo de estar entregue.


Depois de uma noite de quase sono acordo cedo e a primeira coisa que me vem à cabeça é neutra.
Neutra porque só quero sair de casa e caminhar, isso mesmo, lavei o rosto, coloquei uma roupa apropriada e fui. Sem música, sem cura e a procura de perdão. Meu senso de observação estava aguçado, mas hoje, em relação a mim. Comecei a me ver por dentro e me desconstruir, desconstruir como pessoa, como ser humano tentando eliminar o kitsch da minha vida para assim me reintegrar ao neutro. As pessoas me olhavam, eu cumprimentava, as pessoas caminhavam e eu pensava em cada uma delas, suas vidas, seus sonhos, seus medos e desejos. Procurava nelas o que perco, esqueço e bloqueio, então começa a chover. É absurdo porque justo o dia e que acordo disposta a fazer a tal caminhada, justo quando decido ser saudável a chuva cai. Olho literalmente pro céu e me aborreço com Ele.


Grito internamente: quero caminhar. Caminhar entendeu?


Como resposta chove mais forte e eu continuo, vejo as pessoas entrando em seus carros, vejo algumas correndo em direção à padaria, as calçadas, as marquises, mas continuo forte e decidida a não interromper meu percurso. Não tiro os óculos, não corro, não reclamo, está feito, quero caminhar. De repente a chuva cessa, diminuo os passos, observo ao redor e vejo-me nos outros. Vejo o que procurava, percebo que sou igual a eles. Peço chuva então, quero purificar minha alma e quero já. Absorver tudo é o que mais quero, mas não posso sozinha, aliás, não tenho esse direito. Percebi que a chuva não vinha mais, então voltei para casa e coloquei água para ferver.


Tenho inquietação e tudo me provoca pergunta, voltei e a água ainda esquentava. Decidi observar a inquietação, mas a da água que começava a criar bolhinhas no fundo da panela. Achei aquilo maravilhoso, a água inquieta por querer sair dali. Ela começava a ferver e vejo que agora precisa sair. Começa seu processo de evaporação, ou será libertação?


A água aprisionada a ela mesma por ser água?


Ponho a mesa e penso sobre liberdade, quanto mais você a persegue mais ela te aprisiona e ao invés de ser um direito passa a ser uma obrigação. Será que estou aprisionada a mim? Inquieta por estar presa a mim?


Tenho medo da extensão disso tudo. É preciso medir, digo medir de maneira ampla, minha única dimensão é a embriaguez do silêncio e dele tenho medo. Vivo intensamente e meu mundo é rápido demais. O telefone tocou...


Não para de tocar e não quero atender, não quero que me encontrem, pois decidi desintegrar, desintegrar por meio da divisão atômica e extremamente artificial, porque agora só posso me dividir artificialmente e de forma oposta encontrar os dois pólos. Preciso deslavar minha alma. Ah, deixa eu te contar uma coisa!


A água ferveu, secou e agora está liberta.


quinta-feira, 15 de abril de 2010

Traços

Grande.

Larga.

Reta.

Quente.

Brigando com a simetria, assim sou Avenida.

Tríade.

Geométrico.

Previsível.

Incansável.

Luminoso, assim sou Semáforo.

Escuro.

Terreno.

Abafado.

Temido.

Necessário, assim sou Túnel.

Verde.

Florido.

Infantil.

Doce.

Colorido, assim sou Jardim.

Infinito.

Submerso.

Azul.

Melancólico.

Salgado, assim sou Mar.

Alto.

Populoso.

Popular.

Imponente.

Indispensável, assim sou Prédio.

Rápido.

Pequeno.

Médio.

Grande.

Feroz, assim sou Veículo.

Vigiado.

Feio.

Clássico.

Moderno.

Violável, assim sou Cofre.

Avenida.

Semáforo.

Túnel.

Mar.

Prédio.

Veículo.

Cofre, assim sou Cidade.

Cidade.

País.

Terra.

Sol.

Lua.

Universo, assim sou Tempo; passado, presente e futuro.

A antítese do que é ser.

Não entendi.

Não sei explicar.

Não posso.

Não quis, assim não Sou.

Sem nexo, mas tudo se enquadra, assim sou Eu.