terça-feira, 28 de dezembro de 2010

...

Por me negar tão enfaticamente, afirmo.

                                                Por me afirmar tão enfaticamente, nego.




                 



                               






                                 

Para Zélia Santos

Não quero nenhum álcool forte, não quero a divagação, pois o fato domina minha estrada e há uma correnteza que me leva, me derruba, me guia.
Sou guiada pela correnteza que chegou a me inundar.
Quais as promessas?
Todas as regras foram quebradas, as chegadas não passaram de partidas.
As idas se resumiram a vindas e novas esperanças construídas através do que já foi e do que ficou.
Mas vida acontece...
Sua semente foi plantada e sua árvore sou eu. 
Minha raiz sugou em sua terra fértil, toda delicadeza, verdade, força e justiça no mundo real e no mundo das idéias, dos fatos e absurdos que me contornam...assim preciso e peço alimento.
A substância eficaz se perdeu entre interrogações que hoje não ultrapassam a retórica eloquente que se foi com ela.



Amo-te!





sábado, 24 de julho de 2010

Definições

Cerejas no inverno são mais doces...


Cerejas são vermelhas, suculentas, luxuriosas.


São Cerejas.


É inverno; faz frio.
É deserto, é desejo, é infinito.
É vida e prazer. 


Materialismo imediato de uma fronteira invisível entre o ontem e o agora.


São linhas, são bordas, estilhaços de um corpo deveras são e uma consciência gritante de loucura.


Ser louco extasia e declara os fatos diários da vida cotidiana sem desconstruir o outro, sem agredir o outro, sem deturpar o outro.


Verdade anunciada e declarada; essa é a identidade da insensatez humana.




A identidade da qual preciso.






quarta-feira, 30 de junho de 2010

Self


Basta!

Exclama a individualidade humana.

Sou feita de blocos concretos, nomeações paralelas, livre, obscura, variante, egípcia.

A linha de observação imposta pelo que é permitido bloqueia minha dimensão e entro em transe através das linhas que me permitem te ver...

Sou um grito abafado, pela noite, pela vida, pela morte, pela liberdade.

Decoro as casas infames da mentira e do pecado.

Sou isca no mar da luxuria.

Não pragmatizo a vida, não me rendo a vaidades.

A verdade me finaliza, mas a verdade da qual falo é feita de toda cadeia de mentira que 
transforma o que nos aprisiona.

As prisões sociais distorcem e nos obrigam a compactuar com o jogo sujo do que se pretende ser.

E viva as identidades!

Criam-se valores, conceitos, novas morais e no entanto vazio.

A "nova" sociedade vive num mundo vazio de imediatismo e ansiedade

As novas fórmulas de felicidade saem caro e custa crer no que de fato é real ou apenas conveniência.

Onde ficam as opções, a tão falada liberdade?

Onde fica a verdadeira consciência e vivência quando se fala das relações humanas?

Felicidade é a nomenclatura que o mundo capitalista criou para poder manipular as massas.





segunda-feira, 28 de junho de 2010

Direito legítimo

Percebi que a concretização da saudade é quando se teve.

Você teve e perdeu.

Algumas palavras dispersas no ar recebem significado excepcional e eu preciso que você identifique. 


Sua voz fica presa, seus olhos ardem e você já não quer mais sentir isso. 

Desculpa, eu não te desejo mais.

Você caiu na profundidade do vazio e não percebe que não posso mais te acolher, você precisa saber escolher sentir saudade e não resumir tudo em interminável vazio.

Hoje talvez eu não sinta falta, mas eu sigo normalmente e é isso, o normalmente me é banal e quando estou ao seu lado não consigo “desnormalizar”, porque assim eu desmoronaria e isso não aceito.

Gosto de escutá-la tocar piano, queria ter o dom, mas como não posso apenas aprecio e encontro o mais intrínseco de mim e paro.

Você me dá medo e me viola o tempo todo.

Num rompante Lígia encerra os silêncios e diz:

 - 
Nem que seja através do impossível calor que derrete diamantes, pela última vez me renderei a perdição. Nosso mundo não soa, só retorna ao declive de um começo. 

Teus lençóis, teus brins, teus mosaicos. Olha para mim, não percebe?

Eu sou teu móbile! Não tenho mais tempo.

Sou das linhas, da lira, da bossa. Meu cavalo branco é meu montante de lírios e orquídeas. Não pare, pois minha vida é tão efêmera quanto à de um beija-flor interrompido. 


Sou réstia de mim e teu espelho é como vidro que estilhaça por esforço humano.

Eu contenho desejos, mas você me induz ao hábito promíscuo.

Encerro as ligações com a infinidade que te rodeia.

Encerro meus pecados.

Encerro teu tempo, mas exijo ser tua. 













quarta-feira, 23 de junho de 2010

Ir


O que quero provar?

Na verdade será uma passagem?

Uma forma de me completar diante as duas faces e até mesmo diante a duplicidade a qual tanto vagueio?

Os pedaços que nos faltam são adquiridos através do outro e da experiência vivida.

Talvez esse seja o caminho para uma desconstrução do que me faltava e do que ainda não me completa.

Caminho sob a linha da duplicidade e estou diante do novo. 

Minhas definições e estigmas caíram por terra e minha universalidade parece contrapor ao que é único.

Dois passos e um pouco mais é a liberdade que preciso agora.

Estou entregue ao risco de ser nomeada e os rótulos são papéis construídos pela cadeia humana de animais não entregues aos seus instintos.

Não racionalizar é de uma graça absurda e o carma  do ser humano é ser racional.

Este rótulo; "Homem, um animal racional." aprisiona a liberdade, o desejo, o instinto e o íntimo que guia as criaturas. 

A loucura humana é mais misteriosa do que o sentido da vida, ninguém está preparado para ser insano.

A vida ritualiza as relações pessoais e a loucura desmascara agressivamente os paradigmas impostos pelo homem.

Viver é comercial, ser entregue ao mundo é absolver-se das limitações impostas pela negociata do Ser em sociedade.

A maioria das pessoas Está e não É de fato.

Os fatos te paralisam e você regride por medo do novo, do inesperado.

Desconstruir o passado é um doloroso fardo preenchido da angústia de uma morte premeditada.

Ao determinar a morte ultrapasso a loucura e não consigo ser afetada.

Não sentir a morte é a dádiva dos loucos.

Matar você em mim talvez seja o maior pecado que cometerei contra nós, mas morrer as vezes é necessário.

No entanto confesso; Não se mata o passado, vive-se apesar de e se constrói um novo futuro, um novo rótulo, uma nova identidade.

Não quero uma via de mão única, sou adepta as possibilidades que o Destino me oferece.

Não é digno negar a felicidade e hoje posso dizer: Permita-se!



Segue


Custa imaginar o novo desordenado e a complexidade humana da imagem desconstruída depois de tantos anos.

Eterno é aquilo que não pode ter fim, no entanto finalizo-te e aproprio-me do teu início.

Embarco em conflitos de uma viagem sem denominação e a incerteza aleatória das tuas verdades.

Entro em teu desuso e quebro tuas ordens, tuas certezas, desfaço as tuas configurações e ainda não ultrapasso o perpétuo que te rodeia.

Levo um tapa e descubro que sonhava. Estou deitada, olho ao redor e vejo além de branco, azul e flores uma imagem que me parece a TV absolutamente distorcida.

Pareço falar, mas ninguém ouve e não consigo me mexer. estou paralisada tentando entender o que me acontece ou aconteceu.

Sonhava que mantinha diálogo?

Mantinha diálogo?

Será que morri?

Leve-me daqui e me liberte dos passados e descontentamentos que o pensar me trás.
Livra-me, desfaz, distrai e transforma.

Transporta teus sentimentos para além de. 

Ouça os pássaros, leia as nuvens, distraia seu corpo.

Eleve os níveis de tua cadeia, aguce o doce da tua vida, desabafe.

Continuo em passos largos um destino desmistificado, trago as verdades, as seitas, as transições.
 
Sou adepta de mim, da minha carne, da minha vida e não vivo mais de uma ilusão, pois desta eu já cansei.



 Ps: ao som de Segue o teu destino na voz da Bethânia.
 

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Segmentada



Pelas faltas e desgraçadas linhas da universalidade do tempo grito sem direito ao silêncio.

Minhas vontades e desimportâncias frente a vida estão nulas, pois hoje me importo.

Não quero beijos falidos de verdade, muito menos sentimentos delirantes de uma madrugada infinita de querer.

Quero a destruição da tua massa e o que ela me provoca.

Quero negar tua falta e destrinchar os abismos que te comprometem e te fazem à esquerda.

Nunca quis os destros, ou melhor, nunca quis os inteiros.

Gosto da união das metades e pedaços arrancados sem pedir licença.

Quero temperamentos que me desmontem, que me destruam e me façam renascer para a vida a fim de concretizar a alienação de morrer.

Pragmatizo sentimentos e prendo-me as fatalidades de todas as decisões que estão por vir.

Não aos fins, eu vim do terreno dos meios e ao meio, não tenho começo.

Não tenho foco, não concretizo idealismos de uma alma insana e apoteótica.

Sou profana e não tenho pátria.

Se possível for, sou eufemismo de mim.


_____________________________________________________________ J. Góis _____________________________________

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Quixote

São cheiros, frases, gestos e palavras não pronunciadas que transformam e perpetuam tudo que somos.


Todos os dias caminhavam, sentavam no banco da praça, confessavam por meio de metáforas o mais íntimo de todos os ideais e marcas vividos e ainda por viver.

Seu nome era Devir e sua briga era com o Destino.

Juntos eram fortes e se encontravam como o mar e o sol no crepúsculo dos dias que se arrastavam, os dias da semana contribuíam para demarcar as ondas do que chamamos vida.

As perguntas que nunca cessam são referentes a vida e o acaso é porta voz camuflado de tudo que é dito, feito e compactuado com o tempo.
Qual seu tempo?

Quero romance, quero toda a indústria da felicidade que o mundo e você pode me proporcionar.

Quero suas cócegas, nossos abraços, teu colo e essa monossilábica que só você pode pronunciar, pois é com você que me desvio, que me lanço e deixo Ser.

Um passado que é agora, um passado que como você mesmo diz; somos nós.

Quero capturar e tornar minha tua dor, queria poder arrancar essa saudade que dilacera tua alma, mas não se pode libertar as prisões causadas pela dor, assim como você não pode me dar o veredito da espera.

Hoje as palavras que me rodeiam trazem certezas frente ao Nunca e tudo que ele representa em nossa vida, hoje eu disse 'meu amor' com o sentimento maior do que todas as outras vezes.

Hoje o Devir e o Destino estão em sintonia e a maturidade que a vida trouxe torna firme as verdades que tanto negamos.

Queria poder dizer; segue teu caminho!

Mas teu caminho é feito da minha presença.

Peço retorno escrito do que você pode me dar, mas "rabiscos" num papel são pequenos diante as cicatrizes que guardo em relação a nossa vida.

E você vem e me sangra com o teu olhar, tua voz, tua forma, sangro de alegria plena e não admito fechar a cicatriz tão pouco estancar o sangue.

Sou coisificada em forma de mim e ao teu lado de fato ultrapasso as denominações do que é ser humano.

Minha metamorfose é inversa; Sou coisa e ao sangrar humanizo.

Que sentimento é esse que não se denomina?

Que maravilha é esse de Ser?

É você. Somos Nós.

Somos o foco de um filme de Álmodovar.

Somos amarelo, azul, verde e vermelho.

Somos primárias e por assim ser nunca chegaremos a um fim.

Esse ciclo está aberto e juro, não tenho o poder nem a coragem de fechar.


 



sexta-feira, 28 de maio de 2010

Ontem


O que é Possível?
Qual a palavra, o gesto, o certo, o errado?
Existe o necessário e o impossível e no meio deles o Possível.
Como se para de amar?
Quando vou parar de perguntar?
Dessa vez quero escrever assim; perguntando, inversamente, contraditoriamente e me deixando.
Sabe o amor?
Então amplifica o que você conhece sobre o amor e transporta para o todo, agora finge que esse todo é você e depois entende como te amo.
Amar é vasto e minha capacidade de amar é infitinita. E amo, amo, amo...amplamente entre significantes e significados.
Não jogamos mais, não esquecemos nunca.
Eu bebia mais e você bem menos, você me observava e dizia: estou relendo seus traços, novas e velhas expressões.
Desejo; essa é a palavra de ordem, mas será que apenas ela nos guia?
Nossa alma veio única e eu sou parte igual da tua diferença, nos completamos?
O que fazer com toda essa reticência da nossa vida e como deixar o ontem e refazer um novo hoje?
Jogo e uso todas as cartas, mas confudo teu blefe e perco tudo.
Encontro as respotas em outros contextos, sua busca é minha busca, somos insanos e vivemos em ciclos inacabados de sentimentos.
Nosso relacionamento é um eterno diálogo com nós mesmos.
Sou feita de tua análise e te preservo até o fim, esse tal de sempre que se depara com o nunca duela entre o nosso agora.
Pergunto ao tempo, aos deuses e sigo sem resposta.
Abro Caio F. em plena madrugada e ele me grita: "Alguma coisa que jamais teria, e tão consciente estava dessa para sempre ausência que, por paradoxal que pareça, era completo nesse estado de carência plena."   
E no mesmo instante lembrei de uma frase assim: " Que vontade, que vontade enorme de dizer outra vez meu amor, depois de tanto tempo e tanto medo"
Então eu amei, amei a mim, assim como nós sabemos que amo a mim e então te encontrei. 
"Alguma coisa explodiu, partida em cacos. A partir de então, tudo ficou ainda mais complicado. E mais real."
 ...


domingo, 2 de maio de 2010

Metódo

Chegava do trabalho e como num meticuloso ritual, colocava a bolsa em cima da cama, virara a esquerda e sua toalha e chinelos estavam lá.

O cheiro de café recém feito exalava por toda a casa.

Lígia ia tomar banho e tudo estava no seu devido lugar, Maria Lúcia sua irmã, era uma espécie de empregada e cuidava para que tudo estivesse ao gosto de Lígia.

Ao contrário do que pode parecer não estou lhes contando mais um conto de fadas ou história da irmã boazinha e da irmã má.

Exponho escolhas, o mundo que cada uma por compaixão ou sonhos escolheu.

Uma delas guiou sua vida sempre em torno do servir com intuito de ser agraciada pelos seus méritos.

Essa buscou o profissionalismo no que sabia fazer e durante anos se dedicou a um propósito escolhido pelas circunstâncias. 

Era metódica, arrogante, mas de bons modos meticulosamente premeditados.

Em meio a leituras superficiais de romances água com açúcar foi absorvendo a fragilidade de uma mulher sonhadora e tola.

Apaixonou-se pelo primeiro príncipe e dedicou anos de uma construção de personalidade a um único homem. 

Continuou seus hábitos; trabalho, compras de cremes de beleza, trabalho, leitura de romances, trabalho, sonhos, trabalho, ilusão do príncipe encantado, trabalho, repouso.

Dedicava-se tanto ao trabalho que se perdia na exaustão de querer ser a melhor e esquecia de cuidar de si mesma.

Seu príncipe cansou.

Todos os romances foram lidos.

O tempo passou.

E Lígia não se dava conta da não vida ao seu redor.

Com o tempo veio a velhice. Por mais que tivesse trabalhado não construiu uma base sólida, pois não passava de uma técnica contábil. Mesmo sendo uma das melhores na empresa que trabalhava não ousou, não tomou decisões necessárias e apropriadas. 

Contentou-se com pouco e em sua inexperiência do que é 'muito', achou que era feliz.
Hoje Lígia tem setenta e dois anos, é aposentada, não casou nem nutriu qualquer tipo de relacionamento, é amparada por Maria Lúcia, tem frequentes pesadelos e está praticamente cega devido um glaucoma.

Chora diante da vida e se arrepende amargamente pelo não fazer, não ousar, não amar.
Pede socorro silenciosamente e em cada gesto agressivo é posta à prova. 
Em cada palavra denuncia uma vontade de mudar, tentar de novo e abraçar o mundo. 
Lígia hoje vê o que no passado nunca ousou sonhar.

Quanto a Maria Lúcia?

Conto uma outra vez.



sexta-feira, 30 de abril de 2010

Cuca Fundida - Woody Allen

Conto: O cara 

Eu estava tranqüilamente em meu escritório, limpando os restos de pólvora do meu 38, e imaginando qual seria o meu próximo caso. Gosto muito dessa profissão de detetive particular e, embora ela me obrigue de vez em quando a ter as gengivas massageadas com um macaco de automóvel, o aroma das abobrinhas até que faz a coisa valer a pena. Sem falar nas mulheres, nas quais não costumo pensar muito, exceto quando estou respirando. Assim, quando a porta do meu escritório se abriu e uma loura de cabelos compridos, chamada Heather Butkiss, entrou rebolando e dizendo que posava para determinadas revistas e que precisava de minha ajuda, minhas glândulas salivares passaram uma terceira e aceleraram. Estava de minissaia e usava uma camiseta justa, tinha mais curva do que uma tabela estatística e seria capaz de provocar uma parada cardíaca até num caribu.

“O que quer que eu faca, meu bem?” - perguntei logo, para não criar maiores intimidades.

“Quero que encontre uma pessoa.”

“Uma pessoa desaparecida? Já tentou a polícia?”

“Não exatamente, Sr. Lupowitz.”

“Pode me chamar de Kaiser, meu bem. OK, quem e o cara?”

“Deus.”

“Deus?”

“Isso mesmo. Deus. O Criador, o Princípio de Todas as Coisas, o Onisciente, Onipresente e Onipotente. Quero que O encontre para mim.”

Olhem, já tive alguns malucos no escritório antes, mas, com uma forma física daquelas, você é obrigado a ouvir.

“Por que quer que eu te encontre Deus?”

“Isso é da minha conta, Kaiser. Só quero que O encontre.”

“Olhe, meu bem, acho que você procurou o detetive errado.”

“Porquê?”

“A menus que você me dê os dados.”

“Está bem, eu dou”, ela respondeu, mordiscando ligeiramente o lábio inferior e levantando a saia para ajustar as meias, lá no alto das coxas, só porque viu que eu estava olhando. Naturalmente, fiz de conta que não vi.

“Vamos jogar limpo, meu bem” - eu disse, implacável.

“Bem, a verdade é - eu não poso para revista nenhuma.”

“Não?”

“Não. Nem meu nome é Heather Butkiss. Chamo-me Claire Rosensweig e sou estudante de filosofia. História do Pensamento Ocidental, você sabe. Tenho que entregar minha tese até janeiro. Sobre a religião ocidental. Todos os meus colegas estão preparando teses especulativas. Mas, na minha, quero ter certeza. O Professor Grebanier disse que se alguém provar alguma coisa, ganhará nota máxima. E papai disse que me daria um Mercedes se eu conseguisse.”

Abri um maço de Lucky Strike e um pacotinho de chicletes e enfiei um de cada na boca. A história dela estava começando a me interessar. Intelectualóide mimada. Corpo nota 10: e um QI que eu gostaria de conhecer melhor.

“Pode me dar uma descrição de Deus?”

“Nunca O vi.”

“Então como sabe que Ele existe?”

“Isso compete a você descobrir.”

“Oh, que ótimo! Quer dizer que você não sabe como e a cara Dele e nem por onde devo começar?”

“Para dizer a verdade, não, Embora eu suspeite que Ele esteja em toda parte. No ar, nas flores, em você, em mim - talvez até nesta cadeira.”

“Estou entendendo,” Ela era panteísta. Tomei nota mentalmente daquilo e prometi que iria dar uma espiada por aí - por 100 dólares ao dia, mais as despesas e um convite para jantar. Ela sorriu e disse tudo bem. Descemos juntos pelo elevador. Estava ficando escuro lá fora. Podia ser que Deus existisse, mas o certo é que havia naquela cidade um bando de caras que iriam tentar me impedir de encontrá-lo.

Minha primeira pista era o Rabino Itzhak Wiseman, que há tempos me devia um favor por eu ter descoberto quem estava esfregando carne de porco em seu chapéu. Desconfiei de que havia algum perigo iminente, porque ele estava apavorado quando o procurei.

“É claro que este de quem você está falando existe, mas não posso nem dizer seu nome, senão Ele me fulmina com um raio. Não consigo entender por que alguns são tão sensíveis quanto a um simples nome.”

“Já O viu alguma vez?”

“Se eu O vi? Você deve estar maluco. Posso me dar por feliz quando consigo ver meus netos.”

“Então como sabe que Ele existe?”

“Que pergunta mais cretina! Como eu poderia usar um terno caro como esse se Ele não existisse? Olhe aqui, sinta o tecido. Caríssimo! Como posso duvidar de sua existência?”

“Mas só isso?”

“E você acha pouco? E o Velho Testamento, o que acha que é? Um suplemento esportivo? E como acha que Moisés conduziu os hebreus para fora do Egito? Sapateando e gritando oba? E pode me acreditar: é preciso mais do que um alisador de cabelo para domar as ondas encapeladas do Mar Vermelho e reparti-las ao meio. É preciso poder!”

“Quer dizer que o Homem é durão, hem?” “Duríssimo. Mais do que você pensa.” “E como sabe disso tudo?”

“Porque nós somos os eleitos. Cuida de nós como de Seus filhos e, aliás, este é um assunto que algum dia ainda vou discutir com Ele.”

“O que você paga a Ele para ser um dos eleitos?”

“Não posso responder.”

E foi isso aí. Os judeus estavam todos no esquema. Sabem, aquela velha jogada de pagar proteção. Toma lá, dá cá. E, pelo que o Rabino falava, Ele tomava mais do que dava. Peguei um táxi e fui ao Danny, um salão de bilhares na 10.a Avenida. O gerente era um sujeitinho raquítico e ligeiramente morrinha.

“Chicago Phil está por aqui?” - perguntei.

“Quem está querendo saber?”

Agarrei-o pelas lapelas, no que devo ter também agarrado alguma pele.

“O que você perguntou, seu merda?”

“Está lá nos fundos”, ele respondeu, mudando subitamente de atitude.

Chicago Phil. Falsificador, assaltante de bancos, meliante tristemente célebre e ateu confesso.

“O Cara não existe, Kaiser. O resto e conversa fiada. Cascata pura. Essa história de Chefão e farol. Na realidade, é uma quadrilha inteira que age em Seu nome. A maior parte sicilianos. Internacional, sacou? Mas sem essa de dizer que um deles é O Cara. Só se for o Papa,”

“Gostaria de talar com o Papa”, arrisquei.

“Posso ver isso pra você”, respondeu, me dando uma piscadela.

“O nome Claire Rosensweig significa alguma coisa pra você?”

“Não.”

“E Heather Butkiss?”

“Butkiss? Hei, claro! É aquela oxigenada que estuda metafísica.”

“Metafísica? Ela disse filosofia!”

“Estava mentindo. É professora de metafísica. Andou transando por uns tempos com um professor de filosofia.”

“Panteísta?”

“Não. Empiricista, se bem me lembro. Um reacionário. Rejeitou completamente Hegel ou qualquer outra metodologia dialética.”

“Um daqueles, não c?”

“Isso mesmo. Antigamente, tocava bateria num trio de jazz. Depois se viciou em Positivismo Lógico. Quando isso também mixou, tentou Pragmatismo. A última notícia que ouvi dele foi a de que tinha roubado uma fortuna para fazer um curso de Schopenhauer na Universidade de Colúmbia. A quadrilha anda atrás dele para pegar suas apostilas e vendê-las por bom preço.”

“Obrigado, Phil.”

“Vá por mim, Kaiser. O Cara não existe. Branco total. Eu não passaria metade dos cheques sem fundo ou engrupiria os outros, como faço, se tivesse a menor sensação da autenticidade do Ser, O universo é estritamente fenomenológico. Nada é eterno. Tudo é sem sentido.”

“Quem ganhou o 5° páreo?”

“Santa Baby.”

Tomei uma cerveja numa birosca chamada O'Rourke's e tentei juntar as pontas, mas nada ligava com nada. Sócrates tinha se suicidado - pelo menos, era o que corria pelas bocas. Cristo fora assassinado. Nietzsche pirara de vez. Se o Cara realmente existisse, não queria que ninguém tivesse certeza. E por que Claire Rosensweig teria mentido? Será que Descartes estava certo? O universo era mesmo dualístico? Ou a razão estaria com Kant, que condicionou a existência de Deus a certos padrões morais?

Aquela noite fui jantar com Claire. Dez minutos depois de pagar a conta, já estávamos na horizontal e vocês podem pensar o que quiserem, desde que se trate de Pensamento Ocidental. Ela teria ganho medalhas de ouro em várias provas olímpicas, inclusive salto com vara e 100 metros de peito. Em seguida, deitou-se no travesseiro ao meu lado, ocupando também o meu travesseiro com sua cabeleira. Acendi um cigarro e, enquanto olhava para o teto, perguntei:

“Claire, e se Kierkegaard estivesse certo?”

“Sobre o quê?”

“Sobre o conhecimento, o verdadeiro conhecimento. E se dependesse da nossa fé?”

“Isso é absurdo.”

“Não seja tão racional.”

“Não estou sendo racional, Kaiser.” Ela também acendeu um cigarro. “Não me venha com esse papo ontológico. Pelo menos agora. Não estou com saco.”

Ela estava perturbada. Quando me inclinei para beijá-la, o telefone tocou. Ela atendeu.

“É pra você.”

A voz do outro lado era a do Sargento Reed, da Homicídios.

“Continua procurando Deus?”

“Continuo.”

“O tal Onipresente, Onisciente e Onipotente? Criador de Todas as Coisas e tal e coisa?”

“Ele mesmo.”

“Alguém com essa descrição pintou no necrotério. Venha dar uma olhada.”

Fui correndo. Quando cheguei lá, não tive dúvidas: era Ele. E, pelo Seu aspecto, tinha sido um trabalho profissional. Bati um rápido papo com o tira de plantão.

“Já estava morto quando O trouxeram”, ele disse.

“Onde O encontraram?”

“Num armazém do subúrbio.”

“Alguma pista?”

“Trabalho de um existencialista. Isso é óbvio.”

“Como sabem?”

“Sem método, aleatório, como se não seguisse nenhum sistema. Puro impulso.”

“Um impulso irresistível?”

“É isso aí. Logo, você é um dos suspeitos, Kaiser.”

“Eu??? Porquê?”

“Todo mundo sabe como você se sentiu sobre Ele.”

“Está certo, mas isso não quer dizer que eu O tenha matado.”

“Por enquanto não, mas é um dos suspeitos.”

Lá fora, na rua, respirei fundo e tentei clarear a cabeça. Tomei um táxi para Newark e, lá chegando, caminhei mais um quarteirão e entrei num restaurante italiano chamado Giordino's. Claro, numa mesa dos fundos, lá estava Sua Santidade. Era o Papa, sem dúvida. Sentado entre dois caras que eu já tinha visto numa lista de Mais Procurados.

Ele mal levantou os olhos de seu fettucine. Apenas disse:

“Sente-se.” Estendeu-me o anel. Abri meu melhor sorriso, mas não o beijei. Ele ficou desapontado e eu achei ótimo. 1 a 0 para mim.

“Esta servido de fettucine?”

“Obrigado, Santidade. Mande brasa.”

“Não quer nada? Nem salada?”

“Acabei de comer.”

“Como quiser, mas depois não se queixe. O tempero aqui é ótimo. Ao contrario do Vaticano, onde não conseguem fazer nada comível.”

“Pretendo ir direto ao assunto, Pontífice. Estou à procura de Deus.”

“Pois veio à pessoa certa.”

“Quer dizer que Ele existe?”

Os três riram muito. O cara ao meu lado disse:

“Que gracinha! O rapaz quer saber se Ele existe!''

Procurei uma posição mais confortável na cadeira e depositei todo o peso do meu pé sobre seu dedo mindinho.

“Desculpe”. Mas notei que ele tinha ficado uma onça. O Papa continuou:

“Claro que existe, Lupowitz. Mas eu sou o único que se comunica com Ele. Sou o Seu porta-voz.”

“Por que você, meu chapa?”

“Porque só eu uso essa túnica vermelha.”

“Esse roupão aí?”

“Não zombe. Toda a manhã, quando me levanto, visto esta túnica e penso comigo: Estão falando com Ele! O hábito faz o monge. Pense bem: se eu andasse por aí, de jeans e rabo-de-cavalo, acabaria sendo preso por vadiagem.”

“Quer dizer que é tudo cascata. Não existe Deus.”

“Não sei. Mas que diferença faz?”

“Você nunca pensou que a lavanderia podia atrasar a entrega da sua túnica, tornando-o igualzinho a nos?

“Uso sempre o serviço urgente. Vale a pena, só pra garantir.”

“Claire Rosensweig quer dizer alguma coisa?”

“Claro. Trabalha no Departamento de Ciências de uma faculdade dessas por aí.”

“Ciências, você disse? Obrigado!”

“Obrigado por quê?”

“Pela resposta, Pontífice.”

Peguei o primeiro táxi (o qual foi o quarto ou o quinto), e me mandei. No caminho parei em meu escritório e chequei algumas coisas. Enquanto dirigia para o apartamento de Claire, juntei as peças do quebra-cabeça e, pela primeira vez, elas se ajustaram, quando Claire abriu a porta, usava um peignoir diáfano e parecia grilada.

“Deus morreu! A polícia esteve aqui. Estão te procurando. Acham que o criminoso foi um existencialista,”

“Nada disso, meu bem. Foi você.”

“Corta essa, rapaz.”

“Foi você quem o matou.”

“Que história é essa?”

“Você mesma. Nem Heather Butkiss nem Claire Rosensweig, mas simplesmente Dra. Ellen Shepherd.”

“Como descobriu meu nome?”

“Professora de física na Universidade de Bryn Mawr. A mais jovem catedrática de todos os tempos por lá. Nas férias deste ano ligou-se a um baterista de jazz, viciado em filosofia. Ele era casado, mas isso não a impediu. Passou com ele uma ou duas noites e achou que estava apaixonada. Mas não deu certo porque Alguém se interpôs entre vocês: Deus. Sacou, meu bem? Ele acreditava no Cara, mas você, com a sua mente estritamente científica, precisava ter certeza.”

“Não é nada disso, Kaiser. Eu juro!”

“Assim você fingiu estudar filosofia porque isto lhe daria uma chance para eliminar certos obstáculos. Livrou-se de Sócrates com certa facilidade, mais aí Descartes entrou em cena e você serviu-se de Spinoza para ver-se livre de Descartes. Mas quando Kant apareceu, você descobriu que tinha de livrar-se dele também.”

“Você não sabe o que está dizendo.”

“Entregou Leibnitz às baratas, mas isso não bastava, porque você sabia que se alguém acreditasse em Pascal você estaria perdida, e assim tinha de livrar-se dele também. Mas foi aí que você cometeu um erro, porque confiou em Martin Buber. E o erro foi o de que ele acreditava em Deus. Portanto, você mesma teve de matar Deus.”

“Kaiser, você esta louco!”

“Não, meu bem. Você se fingiu de panteísta e isto lhe deu acesso a Ele - se Ele existisse, como existe. Foi com você à festa de Shelby e, quando Jason estava distraído, você O matou.”

“Quem são Shelby e Jason?”

“E que diferença faz? A vida é absurda assim mesmo.”

Ela começou a tremer.

“Kaiser, você não vai me entregar, vai?”

“Claro que vou, meu bem. Quando Deus é mandado para o pijama-de-madeira, alguém tem de pagar a conta.”

“Oh, Kaiser, vamos fugir juntos. Só nós dois! Vamos esquecer essa história de filosofia e nos dedicarmos, quem sabe, à semântica!”

“Nada feito, meu bem. Já está decidido.”

Ela debulhou-se em lágrimas enquanto descia as alças de seu peignoir e, num instante, eu estava diante de uma Vênus nua cujo corpo parecia dizer: Pegue-me - Sou toda sua. Uma Vênus cuja mão direita me fazia cafuné nos cabelos, enquanto sua mão esquerda me apontava uma .45 na nuca. Desviei-me com um sopetão e esvaziei o meu .38 em seu lindo corpo antes que ela puxasse o gatilho. Deixou cair a arma e fez uma cara de quem não estava acreditando no que acabara de acontecer.

“Como foi capaz de fazer isso, Kaiser?”

Ela estava morrendo depressa, mas ainda tive tempo de dar-lhe o golpe de misericórdia.

“A manifestação do universo como uma idéia complexa em si mesma, em oposição a estar no interior ou no exterior do próprio e verdadeiro Ser, é, inerentemente, um nada conceituai ou um Nada em relação a qualquer forma abstrata de existência, de existir ou de ter existido perpetuamente, sem estar sujeita às leis de fisicalidade, de movimento ou de idéias relativas à antimatéria ou à falta de um Ser objetivo ou a um Nada subjetivo.”

Foi uma definição sutil, mas acho que ela entendeu muito bem antes de morrer.



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Genialidade.
Cineasta, roteirista, escritor, ator e músico.
Woody Allen faz parte dessa gama de multifacetados. Muito conhecido por seus filmes que falam quase sempre sobre neuroses da vida cotidiana, Woody também passeia pelo mundo da literatura.
O conto 'O cara' pertence ao livro Cuca Fundida que é um misto de filosofia e impressões muito pessoais do escritor.

Vontade de ler na integra?
Download: http://www.4shared.com/document/ehpwuCJe/woody_allen_-_cuca_fundida.htm


_____________________________________________________________ J. Góis _____________________________________







quinta-feira, 29 de abril de 2010

As ruas e esquinas parecem diferentes, os bancos, os pássaros. Vejo tudo e me pergunto sobre o nada. 
 
Entro em regresso em busca de um passado que já não volta, meu sentir faltaé tão mais intenso do que eu e então pergunto sobre como viver.
Quero uma fuga para um lugar bem distante onde eu dite as regras e onde seja soberana.
 

Eu te disse, lembra?
 

Disse como os reflexos atrapalham, disse como a saudade não dói, o que dói é a falta, te contei sobre a falta e sobre o vício de reencontrar o que se teve.
 

Meu medo agora é ter.
 

Tenho uma vaga idéia de alucinação, não precisa ser de viés químico, vem de metabolismo, mas é preciso que seja agora. Cumpro o meu ritual, mas há algo que falta, sei bem disso, sei sobre as flores, sobre as canções, os filmes, sei sobre as cidades, mas não tolero mais a situação de não poder dizer: sei de você
 

Você é meu estranho, meu insólito, meu ás, mas não sei de você.
 

Eu te aborreço, te procuro, e assim te perco, mas não sei de você.
 

Conheço teu corpo, teu cheiro, teu modo, te odeio, te esnobo, mas te desejo.
 

Quero definições, quero certezas, mas não há certezas, não há regras quando tento saber de você. Tudo que te falo tem muito de mim, minha palavra me denuncia, minha palavra é meu punhal, é alucinada de mim e agora eu começo a transcender, porque quando a palavra está em jogo é tudo ou nada, não marco passos falsos, encontro meu contexto e sigo a linha oblíqua da eternidade. 

Quebro e meu corpo precisa ser riscado por ritos pessoais, secretos e diários. 
Assim meu ambiente foi obrigado a viver sem cores e excessos, conheci o passado e parei de brincar com o tempo.

Observava e sentia um mundo diferente ao meu redor, sentia certa vibração, sentia que tudo encaixava da forma que a gente deveria sentir que encaixa e não como se deve.
Percebi então minhas divagações de por que e para que, já que meu vício resume o meu ponto de partida e todo ponto de partida tem um por quê


Tudo presta, mas nada se enquadra.

Sou absurda e faço parte da peça que inventaram, me puseram e nem perguntaram se gostaria de participar ou não.
Foi Ele.
A culpa foi Dele: o Alfa e o Ômega. Fui posta e devo arcar com o que me é dado em prova de sobrevivência.

Talvez te culpe pela premeditação da criação universal e te devote instintos não tão humanos assim. Somos parte de ti, mas qual é a porcentagem de tua veia humana já que és tudo?

Carta marcada

Porque quando encontro o Às das cartas às quais debruço meu suor e minha fúria procuro sustentar a leveza que vem, mas ela vem de dentro, pois sou íntima, nunca esqueça, sou íntima. 
Antes de tudo preciso encontrar a fatalidade que me envolve, me debruço no que é implícito e que por vezes dói.
Em minha espécie a dor sempre é necessária.
O quanto quero é o que posso. O que eu posso nem sempre me conduz, preciso do ar, mas não o que expiro, pois este é sujo. 

A inspiração é nata e estou quase completa, tenho aquilo que não posso buscar, pois o que busco é aquilo que você foge.
Sou poeta?
As respostas agora chegam, mas não tranquilizam. Perco a paz e na dança ( ou vida ) que ensaio nada me basta, então pergunta: O que me basta?
Não sei.
Procuro diariamente o néctar que sai das minhas veias, pois meu sangue pulsa e então sinto que vou complementando o que não é orgânico.
Sou o que se exprime, mas não é revelado. 

O que vejo na diferença é que já está tudo tão desgastado, mas ainda assim repito: minha entrega é ao que se faz singular.

Quero então complementar a imensidão de Ser e enquanto desvendo teu olhar procuro desprender-me do que já não é, pois eu Sou.
Eis minha interpretação do que é a vida e a vida seja ela esta inverdade do que eu recrio na culpa deslavada da vontade de entregar-me ao vicio de tudo que possa subverter em mim a nossa loucura. 

Nunca estou imune ao que me entrego, já que há um abismo entre os laços que unem a humanidade e o homem. O homem crê e eu sou apenas uma mulher revestida no acaso que se chama vida. A vida é minha continuação, já que todos possuem destinos e meu acaso é regado ao monismo do que me forma.
Então vejo a sordidez do que se transforma quando as notas da minha não-música se instauram em mim, percebo que já não encontro o elo entre o que me prende a você.
Diga-me agora quem é você, diga-me o que posso encontrar nesse teu eu que esconde atrás de máscaras a realidade do que se confunde entre o ato e o fato. Quem sabe a solidão de minha alma?
Faltam-me argumentos, eis que sou a configuração de um fruto intocado pelo que posso Ser ou Dever, te relato agora que o conflito está no devedor, por isso puxo o valete das cartas que outrora busquei. Entreguei-me a elas e diariamente puxo-as como se fosse um jogo o qual o destino divaga entre o momento do blefe e meu Straight Flush me deixando nua, pois um blefe exprime toda a verdade que fujo.